Balanço de 2007

Os Imprescindíveis:

  • O mesmo mar 
  • Odisseia
  • Poemas de Konstantinos Petrou Kavafis
  • Um amor feliz
  • A insustentável leveza do ser

Os muito bons:

  • A questão de Bruno
  • Rua do arsenal
  • O jogo de morte: a variante de Lüneburg
  • O homem que só gostava de números
  • Os Pensadores (Os Criadores, Os Descobridores)
  • O fantasma dos Canterville e outros contos

Escrito por philobiblon e J

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Leitura 24

Nome do autor: Botelho, F.

Título do livro: Gritos da minha dança

Data de edição: 2003

Sinopse: “Mas o Doutor efervesce, efervesce, efervesce, quer Adélia. Então Amélia, um dia (uma noite), em desespero de causa, incapaz de dar ao Doutor a felicidade total, incapaz ainda de dobrar Adélia à impura satisfação de transitórios apetites carnais, propôs ao Doutor: Já que tão bem lhe quer, case com ela, peça-lhe!”.

Recheado de inéditos, e que fique desde já esclarecido para que ninguém se engane ou caia em confusões: não será determinantemente uma biografia, muito menos uma autobiografia, se bem que de ambas tenha a sua parte. Terá também, embora de forma desordenada, ao sabor de apetites e caprichos pontuais, esta não poderia faltar inevitavelmente. Na sua breve introdução Fernanda Botelho promete-nos que o seu livro não terá certamente um semblante negro, “já que de negro não me vesti nem a vida me vestiu, só de um antracite carregado, um ou outro mais leve e, vá lá, pungente”.

Classificação: 3 (bom)

Opinião pessoal: Livro a que rapidamente fazemos alusão à expressão “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Abissalmente complexo, ora bizarro ora desconexo, emaranha-se num compasso rítmico de soantes, consoantes, vogais, fonemas, neologismos, entre outros. Enfim, em suma, uma mistura satírica e deliciosamente selvática.

De uma genialidade perfeita da sintaxe, aliás, raro livro de uma linguagem sedutora, este obra literária é tanto encantadora e inebriante, quanto assustadoramente incompreensível e resoluta. Composto, penetrando em si mesmo a respectiva singularidade, poder-se-ia, analogamente, comparar este livro a uma enciclopédia de conhecimento ao nível da língua portuguesa: foi, por ventura, o livro que me obrigou, recorrentemente, ao uso de um dicionário.

Um excelente entretenimento.

Escrito por philobiblon

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Leitura 23

Nome: Gaarder, J.

Título do livro: A rapariga das laranjas

Data de edição: 2003

Sinopse: O que fazer quando um pai, falecido demasiado cedo para nos lembrarmos dele, decide falar com o filho, através de uma carta escrita há onze anos? Esta é a experiência de Georg Roed, de quinze anos, quando a família descobre a carta do seu pai. Juntos, Georg e o pai vão dialogar e manter finalmente a conversa de adultos que não puderam ter em vida. Nessa carta, Jan Olav, o pai de Georg procura uma bela rapariga carregada com um saco de laranjas. Nada o demove, nem o facto de não saber nada dela, nem o nome. Procura-a com todo o entusiasmo da juventude, enquanto imagina qual a razão que a leva a atribuir um valor tão grande às laranjas que ele, desastradamente, fez rolar nesse primeiro encontro. Georg mergulha nesta aventura descrita com grande paixão pelo pai, falecido quando ele tinha apenas quatro anos.

Classificação: 2 (dispensável)

Opinião pessoal: Provavelmente por melhor convir a um público juvenil, acabei por acolher esta obra com um grave desapontamento: é possível que, após a leitura de A Vida é Breve há uns anos atrás, esperasse bastante mais desta segunda leitura. Hipotética e abstractamente, faltou um certo conteúdo, uma certa complexidade, uma certa elaboração.

Através de uma carta transposta intencionalmente de pai para filho, do passado para o presente, relata-nos as angústias convencionais perante a morte. O que nele é primordialmente retratado é a busca incessante para o sentido último da vida (ser ou não ser) assim como para a razão resoluta da morte (seremos todos pó e cinza ou a continuação livre da vida?).

Não sei se corresponderá a uma tendência natural do autor, mas é evidente a sua insistência nesta problemática intemporal, nesta dicotomia vida e morte.

Escrito por philobiblon

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Leitura 22

Nome do autor: Auster, P.

Título do livro: O livro das ilusões

Data de edição: 2003

Sinopse: Após a morte da mulher e dos filhos num acidente de avião, David Zimmer entra em depressão. Para tentar fugir ao desespero, entrega-se à escrita de um livro sobre Hector Mann, um virtuoso do cinema mudo dado como desaparecido em 1929.

Publicada a obra, David aceita traduzir as Memória do túmulo, de Chateaubriand, e refugia-se num lugar perdido para fazer face à hercúlea tarefa que se impôs. É então que recebe uma estranha carta proveniente de uma pequena cidade do Novo México, supostamente escrita pela mulher de Hector: “Hector leu o seu livro e gostaria de encontrá-lo. Está interessado em fazer-nos uma visita?”. Trata-se de uma impostura ou Hector Mann está realmente vivo? Zimmer hesita, até que uma noite uma jovem mulher lhe bate à porta e o obriga a decidir-se, transformando para sempre a sua vida. Contada pela jovem mulher, a história do extraordinário e misterioso Hector Mann é o fio condutor do presente romance. Mas o poder narrativo de Paul Auster transporta-nos bem para lá da magia do cinema mudo e mergulha-nos no coração de um universo muito pessoal, em que o comido e o trágico, o real e o imaginário, a violência e a ternura se misturam e dissolvem.

Classificação: 4 (muito bom)

Opinião pessoal: Parece-me improvável que alguém consiga, verdadeiramente, ficar indiferente a este livro.

Em minha opinião, e numa primeira análise à escrita de Paul Auster, diria que é o que de melhor li até agora no que toca à simbiose entre a palavra e a imagem, isto é, entre a escrita, enquanto produto final do livro; e a imagem, enquanto produto interpretativo e individual do cinema.

Não obstante, desenganem-se aqueles que esperam um livro de reflexão ou de crítica, de motivações intrínsecas ou extrínsecas ou de mudanças insufladas em nós. Corresponde tão-somente a uma espécie de biografia falsificada, inserida em tantas outras que lhe estão subjacentes, que Paul Auster engenhosamente elaborou, com um mundo quase ausente de palavras, e isto, como é óbvio, chega a um estado de contradição total do que afinal é a representação livreira/literária e a representação visual/cinematográfica. Ou seja, o que ficar incutido dentro de nós depois de lermos este livro, será apenas a interpretação de imagens idiossincráticas. Mas, por muito translúcida que pareça esta argumentação, não deixamos de nos questionar ainda assim: O que é um livro sem a visualização mental? E o que é a visualização mental sem palavras ou significados?

Às vezes demasiado fácil nos acontecimentos decorrentes, num fio condutor de causa-feito forçado, como se verifica no amor que floresce entre David e Alma, o livro parece-me quase brilhante. Toca profusamente num mundo prioritário e primariamente inaudível, com tal delicadeza e simplicidade, que é impossível que não retenhamos algumas dessas imagens para sempre na nossa cabeça (é difícil esquecer Mr. Nobody e The Inner Life of Martins Froust).

A escrita de Paul Auster é claríssima, o que não significa que seja nítida e transparente como a água, como a verdade. Quanto ao título, este é perfeito, principalmente para os mais distraídos como eu.

Escrito por philobiblon

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Leitura 21

Nome do autor: Wilde, O.

Título do livro: O fantasma dos Canterville e outros contos

Data de edição: 2001

Sinopse: “Quando o Sr. Hiram B. Otis, o Ministro Americano, comprou o espaço da Coutada de Canterville todos lhe disseram que era uma decisão insensata porque não havia dúvida alguma de que aquela terra estava assombrada. O próprio Lorde Canterville, que era um homem de honra imaculada, achou melhor mencionar o assunto ao Sr. Otis no momento de discutir os termos do contrato. – Mesmo nós tivemos problemas em viver lá e tivemos de partir (…) – Milord – respondeu o Ministro -, eu pago o valor da mobília e do fantasma. Venho de um país moderno, onde temos tudo o que o dinheiro pode comprar.”

Classificação: 4 (muito bom)

Opinião 1: Oscar Wilde (1854-1900) nasceu em Dublin, filho de um eminente cirurgião e de uma famosa poestisa nacionalista. Foi educado no Trinity College da sua cidade natal e, mais tarde, no Magdalen College de Oxford, onde iniciou o movimento estético, cujo postulado central era o de “a arte pela arte”. Foi um jovem de vestimenta e comportamento extravagantes, que se destacou como estudante e escritor novato em Oxford. Casou-se com Constance Lloyd, em 1884, e teve dois filhos. Escreveu várias histórias para crianças e short-stories: O Príncipe Feliz (1888) e a colecção de contos, O Crime de Lord Arthur Savile (1891), são alguns deles. em 1891, apresentou o seu único romance, o extraordinário O retrato de Dorian Gray, e a este sucedeu uma série de brilhantes comédia, dotadas de engenhosos diálogos e do seu característico estilo epigramático, uma constante na obra de Wilde. Destas destacam-se O leque de Lady Windermere (1892), Uma mulher sem importância (1983), Um marido ideal (1895) e A importância de se chamar Ernesto (1985).

Nessa altura, quando desfrutava de maior êxito, foi vítima de um sensacionalista processo judicial que escandalizou a sociedade vitoriana. Acusado de sodomia, foi condenado a dois anos de trabalhos forçados. depois de cumprida a pena, estava destroçado física e espiritualmente, além de se encontrar na bancarrota. Repudiado pelos seus concidadãos, refugiu-se em França sob um nome falso. Aí publicou, antes de morrer, A balada do cárcere de Reading (1898). Agudo crítico social e autor de obras universais, o seu indiscutível génio e o seu talento contribuíram para que, com o tempo, recebesse o reconhecimento que lhe fora arrebatado.

Estes contos foram escritor por Wilde para crianças dos oito aos oitenta anos, daí que neles convivam níveis de literatura tão distintos. Escritos durante o primeiro período da produção literária do escritor irlandês, a sua elaboração coincide com a infância dos seus filhos, como meio de lhes incutir valores morais. Neles é comum que o bom e puro triunfe, ainda que a tragédia e a melancolia não sejam elementos estranhos aos argumentos.

Por outro lado, Wilde, possuidor de um ardente e engenhoso espírito crítico, em história como O fantasma dos Canterville (1887), graceja com a superficialidade, tanto britânica como norte-americana. A sua crítica é sempre extremamente divertida e talentosa, carregada de fina ironia.

Sucessivamente, em contos como O Príncipe Feliz, O Gigante Egoísta, O Amigo Dedicado, A Criança Estrela e O Aniversário da Infanta, publicados entre 1888 e 1891, Wilde disseca os defeitos e as virtudes dos seus contemporâneos que, no final do século XIX, ainda viviam imersos no seio da rígida sociedade vitoriana. Os contos, transbordando fantasia e imaginação, também falam de sacríficio, de amor, de recompensa e de castigo, e possuem uma clara intencionalidade moral, sem esquecer a promoção do gosto pela beleza e pela arte.

Estas histórias, buriladas em leituras privadas ao longo dos anos, constituem o primeiro êxito literário do autor e encontram-se entre o melhor das short-stories.

Opinião de philobiblon: Numa apreciação global, diria que os contos são realmente bons e que apelam muito à nossa reflexão individual e grupal, mesmo que se anunciem, tendenciosamente, para um público infantil. Perante o actual automatismo da cidadania, estas narrativas surgem como verdadeiras lufadas de ar fresco de boas condutas, de novas consciencializações. Óptimo para crianças curiosas, que desejam descobrir o que há além dos contos populares, e adultos inconformados com a estandardização da sociedade.

Assim, o objectivo, em particular, desta crítica não é expor exactamente aquilo em que nos faz pensar cada um deles, pois não é uma coisa totalmente intrínseca, uma vez que há uma mensagem global extrínseca e, como tal, percebida por todos aqueles que os lerem.

O livro que disponho apresenta-se como uma espécie de colectânea, onde estão presentes os contos O fantasma dos Canterville, O Príncipe Feliz, O Rouxinol e a Rosa, O Gigante EgoístaO Amigo Dedicado, O Notável Foguete, O Aniversário da Infanta, O Filho-da-EstrelaO Jovem Rei e O Pescador e a sua Alma. Desta forma, e porque todos são extraordinários e inesquecíveis, elaborados de uma imaginação belíssima que diria quase que viciante, fiz um breve comentário relativamente àqueles que mais me sensibilizaram.

O fantasma dos Canterville: Acima de tudo, divertidíssimo. Dei por mim a rir de uma coisa tão “séria” como é o assunto referente aos fantasmas. Depois, numa segunda perspectiva, revela-se como uma sublime sátira à sociedade (o Britânico temerário; o Americano corajoso), como um hino à Vida, à Morte, ao Perdão, à Tolerância, à Coragem e ao Amor. E duas coisas também bastante importantes: 1) não devemos ter medo do que pertence ao mundo; 2) temos direito a segredos, sejam eles quais forem, sem acusações alheias.

O Príncipe Feliz: Se fossem exequíveis analogias, diria que este é o conto ideal para caracterizar o que somos hoje: egoístas, egocêntricos, cegos. Exibe o que de melhor a humanidade “expirada” pode oferecer a um povo ignorado, esquecido, morto. Por que no fundo, ao vivermos um sonho demasiado ascendente, demasiado mesquinha, acabamos por nos esquecer do Outro que precisa de nós.

O Rouxinol e a Rosa: Verdadeiramente triste e, à sua medida, bastante real. São tantas as “pequenas” coisas que são sacrificadas no nosso quotidiano para sermos felizes, que iremos ser sempre oportunistas na vida e jamais reconheceremos um gesto simples sem que não o manipulemos à partida. Instintivamente, somos programados socialmente para julgarmos que só os mais fortes sobrevivem e, na realidade, nada fazemos para merecer o que de bom a vida nos dá, como é o exemplo uma simples rosa vermelha.

O Amigo Dedicado: Enquanto conto supremo para o público, ensina valores incalculáveis da partilha e da amizade, tão importantes nos dias que correm. Aqueles que sabem o valor de uma amizade desinteressada sentirão uma repulsa inimaginável ao ler este texto; para aqueles que ainda acreditam que a amizade é uma troca incessante de favores, sentir-se-ão esmagados, pois irão reconhecer-se rapidamente no papel do Moleiro. Mas, de qualquer forma, sentir-nos-emos, muitas vezes, como o pequeno Hans, que faz o que faz por uma obrigação implícita, mas também em nome de amizade que julga fazer parte. 

O Notável Foguete e O Filho-da-Estrela: A noção de narcisismo no seu melhor. Histórias simples, que as crianças facilmente entendem. Quantos aos adultos, espantar-se-ão com a banalidade com que tais acontecimentos ocorrem no nosso dia-a-dia. Há, de facto, pessoas que não olham para além do seu próprio umbigo.

O Pescador e a Sua Alma: É inevitável que não sintamos, algumas vezes, que estamos a ler uma espécie de Mil e Uma noites. Fornece-nos a outra perspectiva das coisas e a distância que pode haver entre elas. E dá-nos a noção da riqueza, da sabedoria, do amor e da curiosidade. Dizem que a curiosidade matou o gato..

Escrito por philobiblon

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Leitura 20

Nome do autor: Hinton, S. E.

Título do livro: Os Marginais

Data de edição: 1990

Sinopse: “Quando saí da escuridão do cinema para a brilhante luz do sol só tinha duas coisas em mente: o Paul Newman e uma boleia para casa. Desejava ter a figura do Paul Newman – que tem um ar duro e eu não -, mas creio que o meu próprio aspecto não é assim tão mau. Tenho um cabelo castanho-claro, quase avermelhado, e olhos de um verde-acinzentado. Quem me dera que fossem mais cinzentos! Odeio quase todos os tipos de olhos verdes… mas é preciso contentar-me com os que tenho. Uso o cabelo muito mais comprido do que a maioria dos rapazes, aparado atrás, comprido à frente e aos lados, mas sou um seboso e na minha vizinhança são poucos os que se ralam com o corte do cabelo. Além disso… o cabelo comprido dá-me um aspecto melhor.”

Classificação: 3 (bom)

Opinião pessoal: Aprecio este livro por uma ou duas razões: em primeiro lugar, porque roça na trilogia comédia, tragédia e drama; em segundo, porque é bastante inteligente, numa perspectiva da própria coerência sequencial, para uma miúda de dezassete anos.

Hinton, sem falsos dramatismos, ao abordar o que a América há décadas tenta descaradamente esconder-nos, mostra o universo de uma criminalidade juvenil, dos anos 60, por vezes forçada (pela a ausência de progenitores ou figuras cuidadoras ou figuras de autoridade), por vezes de regozijo (há um qualquer orgulho ostensivo nos roubos, nas lutas, nas armas, na insensibilidade, na liberdade, etc.).

Simples, mas quase delicado, onde a inocência se desvanece desde o princípio, é um livro que não permite que o leitor se engane: tudo aquilo nunca vai mudar; não há escapatória possível, não há esperança alguma; tudo aquilo vai ser sempre mau, sempre sem finais felizes. É o que se verifica, principalmente, com as personagens Johnny, Bob e Dally.

Se tivermos em conta o ano de lançamento (1967), rapidamente nos apercebemos que se trata de uma leitura nova, fresca, um pouco nua, um pouco crua, um pouco falsa. Tudo o que é descrito neste pequeno livro poderia estar submerso na metáfora kunderiana de kitsch: os contrastes são como que manipulados pela “sociedade” dita social e pela “sociedade” dita criminosa, cuja total inaceitabilidade se esconde entre uma e outra fenda de ambas as classes. A salvação nesta metáfora parece, assim, estar claramente patente nas personagens Ponyboy, Darry e Randy. Por fim, Cherry, atrevo-me a dizer, será a postura na qual a autora mais se identifica, como personagem mediadora destes dois mundos extremos. Ou seja, assume um olhar neutro, ainda que crítico, sobre esta problemática essencialmente socio-económica. O próprio título, Os Marginais, é revelador dessa mesma postura: não são os Socs os marginais, nem tão pouco o são os Sebosos. Ambos constituem parte da culpa, onde não há espaço para desculpabilizações.

Conciso, sem muitas delongas, vai ao cerne das questões sem nunca perder de vista a insuflação pela mudança de mentalidades.

Escrito por philobiblon

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Leitura 19

Nome do autor: Kundera, M.

Título do livro: A Insustentável Leveza do Ser

Data de edição: 2001

Sinopse: Este é um livro onde se olha com um olhar umas vezes melancólico e conformado, outras vezes amargo e revoltado, para o destino de um país, para o destino de um continente, para o destino de uma civilização. E, mais uma vez, só raramente um romance consegue entretecer, da forma como este faz, o destino do homem e o destino do mundo.

A Insustentável Leveza do Ser é seguramente um dos romances míticos do século XX, uma daquelas obras raras que alteram o modo como toda uma geração observa o mundo que a rodeia.

Classificação: 5 (imprescindível)

Opinião pessoal: É acutilante esta tarefa, por duas grandes premissas: a primeira por se prender nas malhas de uma angustiante desumanidade; a segunda por se desdobrar numa complexa teia de contrastes.

Tendo como ponto de partilha uma trama emocional, debruçamo-nos sobre a problemática da separação de uma parte como constituinte de um todo: vivemos assim, página a página, sob o olhar instigador de uma história política enquanto pano de fundo (a invasão da Checoslováquia de 1968), que acarreta, e partilhada por um povo, toda uma carga de tristeza, de alegria, de proibição, de condenação, de êxtase, de ódio, de abnegação, de admiração, de revolta, de submissão, de empatia, de desprezo, de amor..

Num segundo momento, este livro vive dos fulgores dos seus contrastes: o peso versus a leveza, a fidelidade versus a traição, o belo versus o horror, a força versus a fraqueza, a música versus o ruído, o amor versus os encontros eróticos, os símbolos idiossincráticos versus a tábua rasa, os mitos versus a realidade, a liberdade versus o conformismo, a luz versus a escuridão, a alma versus o corpo, os sonhos e os pesadelos versus a realidade, a culpa versus a inocência, a juventude versus a meia-idade, o pudor versus o arrebatamento, o socialismo versus o comunismo, o desprendimento versus o fado, o kitsch versus a total aceitação da merda, a religião versus o poder político.. E por fim, a eterna e constante metáfora a marcar o discurso kunderiano, que, ora se questiona, ora auto-inflige respostas a essas mesmas questões que levanta: tudo é praticamente dado de mão beijada ao leitor, que apreende, assim, não os motivos deste, mas exactamente (e apenas) os sentimentos que decide transpor nas suas personagens, que não são mais do que parcelas do autor. E novamente a eterna ideia da impossibilidade de separação de uma parte do seu todo. E, julgo, ser precisamente neste aspecto que o autor é genial: é em toda esta impossibilidade notória que reside o seu conceito de felicidade: é na eterna repetição (histórica e/ou das partes individuais das personagens mergulhadas no colectivo das mesmas), contrapondo, portanto, e em certa parte, o início do livro, a respeito do eterno retorno de Nietzsche, que encontramos a felicidade tão almejada como uma vertigem.

Mais do que, certamente, considerado como um clássico, deve ser entendido, com toda a legitimidade, como um livro que contempla a mais estranha e intrincada comparticipação das relações humanas: os amores a verterem das mais díspares formas, onde ninguém ama na exacta medida do outro; os incessantes desencontros, sendo os mais evidentes Sabina e Franz pela sua “bagagem emocional”, Thomaz e Simão pela sua incorrigível semelhança e Thomaz e Thereza, onde Karerine se revela, a certa altura, como o melhor intérprete de comunicação, como mediador de uma relação.

Um livro que chora por si só, sem que chegue a ser piegas. Um livro a revelar que o mundo só é mundo se apenas o virmos numa determinada perspectiva, que pode ser: numa perspectiva da traição de Sabina, numa perspectiva da vertigem ou da fidelidade de Thereza, numa perspectiva reconciliadora de Simão, numa perspectiva médica e erótica de Thomaz, numa perspectiva de grito-de-união de Franz, numa perspectiva meramente política, numa perspectiva meramente moral, numa perspectiva meramente histórica, numa qualquer outra perspectiva ou numa perspectiva como soma das partes de todos.

Enquanto posfácio, encontrei a opinião pessoal da Joana Varela (tradutora do livro), que referia a analogia a este livro, a título de Beethoven, como uma partitura musical, não só pelas nuances do próprio enredo (onde cada um, provavelmente, constituiria ainda uma nota musical própria), mas também pela sua própria estrutura, uma vez estar dividido em sete partes, que corresponderia assim às setes notas musicais. Eu acrescentaria a este respeito (já que não me tinha apercebido deste facto até então) a natureza das ondulações marítimas, uma vez que a “oitava” (ondulação marítima) muda de ritmo e inicia um novo ciclo de ondulação marítima. Ou seja, uma suposta oitava parte do livro já não seria a falar de Sabina, Franz, Thomaz, Thereza, Simão, Marie-Claude, Maria-Anne, Karerine, etc., mas outra história qualquer completamente paralela a estes, sem qualquer ligação possível. Quero com isto dizer que estas personagens viveram de facto, mas viveram somente umas para as outras, seja em presença, em imaginação, em ausência…, mas que na morte de cada um, foram, inevitavelmente, caindo no esquecimento irrevogável do mundo.

Escrito por philobiblon

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