Leitura 31

Nome do autor: García Márquez, G.

Título do livro: A aventura de Miguel Littín, clandestino no Chile

Data de edição: 2000

Sinopse: Esta é a verdadeira história do realizador chileno que, proibido de entrar no seu país, aí filmou clandestinamente durante seis semanas. Este livro de Gabriel García Márquez é, pelo método da investigação e pelo carácter do material, uma reportagem. Mas acima de tudo é a reconstituição emocional de uma aventura muito mais íntima e comovedora.

Classificação: 3 (bom)

Opinião pessoal: Uma narrativa documentativa sobre um dos cinco mil exilados com proibição absoluta de regressarem ao Chile: o realizador de cinema Miguel Littín.

Um livro breve cuja inovação passa, essencialmente, por uma perspectiva meramente histórica da ditadura de Pinochet. Não obstante, o que torna este livro tão peculiar é a sua visão de saudade, clandestinidade e repressão, patente na voz de um indivíduo que representa toda uma nação.

Ideal para quem se interessa, holisticamente, por cinema e política.

Escrito por philobiblon

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Leitura 30

Nome do autor: Peixoto, L. J.

Título do livro: Cal

Data de edição: 2007

Sinopse: “As mãos de Ana eram velhas. Os dedos eram grossos e tinham riscos feitos pela lâmina da navalha de retalhar azeitonas. As palmas das mãos eram grossas e tinham o toque da superfície serrada de um tronco. As mãos do velho Durico eram magras e escuras. As costas das mãos, quando as estendia debaixo de um candeeiro de petróleo, eram suaves. As unhas eram certas por serem cortadas com uma navalha, à noite, quando a fogueira lhe iluminava o rosto. As palmas das mãos cheiravam a terra castanha e a fumo. As mãos de Ana passaram a corda para as mãos do velho Durico.”

Classificação: 4 (muito bom)

Opinião pessoal: Nas obras de José Luís Peixoto predomina, como característica inalterável, a remota paisagem Alentejana, e esta, por sua vez, simboliza uma imensa solidão, numa constante dicotomia: a beleza e a atrocidade, o vazio e a completude, o esquecimento e a memória, a vida e a morte de (múltiplas) vidas.

Composto por estórias emaranhadas que, às tantas, até nos dão a ilusão de uma complementaridade, Cal tem a particularidade de uma individualidade que nos envolve e, simultaneamente, nos angustia.

Escrito por philobiblon

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Leitura 29

Nome do autor: Myrakami, H.

Título do livro: Kafka à beira-mar

Data de edição: 2006

Sinopse: Kafka à Beira-Mar narra as aventuras (e desventuras) de duas estranhas personagens, cujas vidas, correndo lado a lado ao longo do romance, acabarão por revelar-se repletas de enigmas e carregadas de mistério. São elas Kafka Tamura, que foge de casa aos 15 anos, perseguido pela sombra da negra profecia que um dia lhe foi lançada pelo pai, e de Nakata, um homem já idoso que nunca recupera de um estranho acidente de que foi vítima quando jovem, que tem dedicado boa parte da sua vida a uma causa: procurar gatos desaparecidos.

Neste romance os gatos conversam com pessoas, do céu cai peixe, um chulo faz-se acompanhar de uma prostituta que cita Hegel e uma floresta abriga soldados que não sabem o que é envelhecer desde os dias da Segunda Guerra Mundial. Assiste-se, ainda, a uma morte brutal, só que tanto a identidade da vítima como a do assassino permanecerão um mistério.

Classificação: 4 (muito bom)

Opinião pessoal: Para não cair em plágios e/ou em românticas redundâncias, classificaria este livro segundo a perspectiva do Independent (“viciante”) e do The Times (“hipnotizante”). Mas, da mesma forma que não posso omitir quão inebriante é a leitura deste livro, também não posso esconder quanto de verdadeiramente decepcionante ele contém.

Embora cada vez mais raro, um aspecto a referir foi a capacidade aliciante que este livro incutiu em mim desde o primeiro minuto. Afinal, tudo “corre bem” desde o começo, até pela própria e alternativa organização narrativa, mas termina-se com aquele sabor amargo de quem leu seiscentas páginas e ficou no vazio. E, em particular, a personagem a quem mais me vinculei (Nakata) é precisamente aquela que, posteriormente, mais me angustia. O livro, enfim, não faculta respostas de espécie alguma e provavelmente nem tem esse propósito; talvez intua somente a sugestão de mais dúvidas. Será essa a liberdade, o nosso (ou não) questionamento a dúvidas constantes?

Se a essência do livro era versar sobre a liberdade, não descortinei nele qualquer evidência; se o objectivo era incidir sobre o conflito edipiano, deixou muito a desejar (afinal foi um Complexo de Édipo fantasiado ou realizado? Ou será esta mera ilação adquirida consoante a nossa própria liberdade?); se o intuito era uma espécie de Mindfulness exagerou, porque ninguém é receptivo a novas experiências senão houver, como consequência, uma aprendizagem (o que aprendemos, afinal, com a vida de Kafka Tamura além daquilo que já sabemos de antemão?)

Em suma, domina em mim uma profunda incompreensão.

Escrito por philobiblon

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Leitura 28

Nome do autor: Kafka, F.

Título do livro: A metamorfose

Data de edição: 2003

Sinopse:Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, durante o sono,numa espécie monstruosa de insecto.

Permaneceu de costas, as quais era duras como uma couraça, e, erguendo um pouco a cabeça, conseguiu ver a saliência do seu grande ventre castanho, dividido em nítidas ondulações. As cobertas escorregavam, irremediavelmente, do alto da curva, e as pernas de Gregor, lamentavelmente finas, comparadas ao seu tamanho primitivo, agitavam-se, impotentes, diante dos seus olhos.”

Classificação: 3 (bom)

Opinião pessoal: Em parte decepcionante, por tanta bajulação escrita sobre este livro. Em algumas opiniões lidas a respeito deste título, pressenti uma estranha obrigação, como se ler Kafka fosse forçosamente imperativo, forçosamente esplêndido. Não obstante, reconheço que é um livro que nos faz, em muitos aspectos, pela sua tão actual perspectiva, pensar em geral na condição humana e em particular na sua correspondente limitação. Como se fosse uma bola de neve em crescimento gradual, o equilíbrio homeostático familiar não existe, porque permanece com eles um empecilho: um insecto horrendo, empoeirado, peganhento.

Quase monocórdico, em parte devido aos cenários envolventes, assiste-se a uma misantropia contínua, a uma configuração nauseante, a uma dissolução e fusão gregária, a uma metamorfose da estratificação social: o sustentador passa a sustentado e vice-versa. Verifica-se uma ruptura na inércia familiar, que abarca três elementos, e, consequentemente, na inépcia de um quarto, anteriormente dinâmico e motivado: os pais de Gregor voltam a trabalhar, independentemente da sua já avançada idade, e Grete, com dezasseis anos, inicia-se (também) no mundo laboral. Gregor, por seu turno, repudiado e esquecido pela sua família, abandonado quase à sua sorte, só (interna e externamente) em si mesmo, vai sobrevivendo na sua incapacidade de ser fazer visível aos outros.

Escrito por philobiblon

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Leitura 27

Nome do autor: Christian Grondahl, J.

Título do livro: Silêncio em Outubro

Data de edição: 2000

Sinopse: “A Astrid na amurada, de costas para a cidade. O vento levanta-lhe o cabelo castanho como uma bandeira esfiapada. Está de óculos escuros e sorri. Há uma afinidade perfeita entre a cidade e o branco dos dentes dela nesta fotografia que tirei há sete anos, pela tarde, num dos pequenos cacilheiros do Tejo. Só à distância se percebe por que se chama ‘cidade branca’ a Lisboa, quando as cores se misturam em reflexos de sol: a luz baica incide horizontalmente nas casas ao longe, que se erguem atrás umas das outras sobre o Terreiro do Paço, nas colinas do Bairro Alto e de Alfama, no outro lado do rio. Há um mês que partiu. Ainda não tive notícias dela.”

Classificação: 2 (dispensável)

Opinião pessoal: Um livro fraco que apenas, de quando a quando, se nos entranha efectivamente na pele. E não sei precisar se esta opinião é devido à elevada expectativa sentida em mim mesma por optar por autor menos conhecido, se devido à capa fotográfica de Edward Hopper, da qual gosto imenso.

Numa perspectiva holística, um livro tendencialmente fundado por rábulas e frases feitas, onde predomina a delineação de uma crise existencial, que cessa sempre com o típico “disse que disse”. Terminámos o livro com a sensação que o próprio autor, às tantas, se perdeu em demasiadas expectativas e especulações. Enfim, um livro que, em minha perspectiva, não oferece ao leitor criação alguma digna de registo.

Um aspecto notavelmente favorável prende-se com o facto de descrever localidades de Portugal, ainda que sumariamente, nomeadamente de Trás-os-Montes, Porto, Aveiro, Coimbra e Lisboa. Fiquei efectiva e inicialmente surpresa por constatar que um dinamarquês viu em Portugal algum conteúdo paisagístico para divagar. Não obstante, até esse factor se revelou profusamente estratégico.

Escrito por philobiblon

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Leitura 26

Nome do autor: Grube, T.

Título do livro: Não me olhes nos olhos

Data de edição: 2003

Sinopse: “Stella Madison, subdirectora de marketing da Beauty Unlimited, esconde um enorme segredo que tenta a todo o custo dissimular – a extraordinária cor dos seus olhos: um azul, outro castanho. Stella é uma jovem atraente, dotada de uma energia arrebatadora, criativa e bem-humorada – qualidades essenciais para quem se move num monde onde a concorrência é forte e o sector muito abrangente. A sua ida vem a tornar-se ainda mais atribulada quando, de repente, decide adoptar um pato; vê a sua carreira ser posta em risco por uma colega; e se apaixona por um homem irresistível… Quanto ao seu terrível segredo, ela apenas a revela após ter tido uma ideia brilhante e invugar para uma nova linha de cosmética que, certamente, lhe trará um enorme sucesso na empresa. É que esta nova linha destina-se precisamente a mulheres com olhos azuis e muleres com olhos castanhos. Quem melhor do que a própria Stella «dois em um» para representar esta campanha publicitária? Será que em breve os seus olhos espreitarão de todas as revistas femininas?!! E o nome Stella, será presságio de «Estrela»?”

Classificação: 2 (dispensável)

Opinião pessoal: Apesar da sofreguidão com que devorei este livro, mais pelo vício da leitura do que pelo seu conteúdo, não posso iludir-me: é apenas mais um livro de entretenimento. E nada mais.

A autora falha, inequivocamente, ao tornar excessiva a emancipação de Stella: ela é atraente, possuidora de um carácter invejável, bem sucedida e desejada por todos. Tal e qual os contos dos príncipes e das princesas, onde os maus são punidos e os bons recompensados e destinados a um final feliz.

Um livro leve, de uma simplicidade escrita bem delineada, mas não particularmente inovador. Banal, apenas.

Escrito por philobiblon

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Leitura 25

Nome do autor: Auster, P.

Título do livro: Inventar a solidão

Data de edição: 2004

Sinopse: Num registo íntimo e pessoal, Paul Auster evoca aqui algumas experiências da sua infância, quando as tentativas (e os frequentes fracassos) de relacionamento com o pai marcavam uma rotina familiar difícil. E, paralelamente, a sua própria experiência enquanto pai.

Por vezes comovente, outras vezes hilariante, Inventar a Solidão é um mergulho no mundo das emoções genuínas e da sentimentalidade. Há neste livro experiências com as quais todos nos podemos identificar – quer como filhos, quer como pais – e considerações sobre a verdadeira natureza das relações familiares. Um livro sobre a família como só Auster podia escrever – experimental mas sempre sentido, capaz de evitar sentimentalismos sem ser sentimentalmente frio.

Classificação: 3 (bom)

Opinião pessoal: Radicalmente oblíquo ao estilo Austeriano: uma narrativa irrepetível e idiossincrática, onde a sua verdade é apenas a sua verdade e cujo mundo pintado por si é apenas o mundo que ele mesmo vê.

Constituído por duas partes (Retrato de um homem invisível e o Livro da Memória), este livro é de uma sensibilidade quase filosófica, quase existencial. E não obstante, é-lo somente isso. Envolvente, sim, mas não o suficiente para se tornar inesquecível.

Elaborado sob um prisma temporal, em processos constantes de analepses e prolepses, cujos leitores têm de estar particularmente atentos, Paul Auster questiona-nos, questionando-se, sobre o sentido da vida em decursos inversos: enquanto filho, enquanto pai, enquanto Ser neutro e desenraizado do mundo.

Poder-se-ia dizer, assim, e sem cair em grandes equívocos, que o presente livro é uma espécie de autobiografia de Paul Auster.

Escrito por philobiblon

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