Leitura 34

Nome do autor: Queiroz, E.

Título do livro: Os Maias

Data de edição: 2003

Sinopse: “A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida (…) pela Casa do Ramalhete, ou (…) o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas (…) tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da senhora D. Maria I (…). O nome de Ramalhete provinha decerto de um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar heráldico do escudo de armas, que nunca chegara a ser colocado, e representando um grande ramo de girassóis atado por uma fita onde se distinguiam letras e números de uma data.”

Classificação: 5 (imprescindível)

Opinião pessoal: Este é um livro muito especial para mim, por várias razões. Especial pela pessoa que me aconselhou a lê-lo, especial pelo tempo que me acompanhou (e que foi mesmo muito tempo) e especial pelo que aprendi com ele. Sendo do meu ponto de vista um livro complexo, não deixa nunca de ser um livro bastante interessante, tanto pelo cariz factual social e político da época, sempre muito bem enquadrada por Eça de Queiroz, como pela história em si.

Esta leitura permitiu-me, através da descrição de Eça, ver como as “tricas”, os tiques e o provincianismo, quase saloio da suposta “alta sociedade” portuguesa, pouco mudaram em duzentos anos, encontrando-se aqui e ali retratos quase perfeitos dos dias de hoje. Só mudaram mesmo o bric-a-brac e as espanholas, que passaram a ter sotaque brasileiro ou ucraniano. As elites intelectuais parecem mais balofas que as dos dias de hoje, talvez por não existir partidos de esquerda, ou melhor, comunistas no parlamento. No entanto, Eça descreve claramente as “trocas e baldrocas” da politiquice caseira em que pouco se debatem os problemas do país, preocupando-se mais com devaneios, vaidades e orgulhos fúteis; enfim, onde muito se fala e pouco de faz. O governo das elites para as elites: também aqui vejo similaridades, pois quando ligo o canal parlamento parece que estou a ver Eça a descrever os deputados que discutem o significado da palavra animal.

É neste emaranhado de gente surge uma das minhas personagens preferidas: João da Ega (será coincidência a semelhança com o próprio Eça de Queiroz?), alguém contra-corrente, diferente, pensante e não alinhado, embora aburguesado como todas as demais personagens. Contudo, a sua irreverência, o seu dom da palavra guia-nos como um foco luz por uma sociedade que, não diria das trevas, mas claramente cinzenta e estática. Não admira que o benjamin Maia se sinta pesado, “velho”, enfadado com aquilo que o rodeia, apenas abanado pela chegada dessa nova mulher misteriosa, bonita e “Chic a valer”.

Desde do início que senti fragilidade na personagem de Carlos da Maia, não tendo que ser um louco apaixonado como João da Ega (pois esse lugar na narrativa já estava ocupado), vejo o jovem Maia como alguém muito igual aos demais, apenas iluminado pela paixão e pela beleza de uma mulher. Revejo-o como uma personagem sem a força do seu avô, fraco e sem muito conteúdo e que em muito pouco tempo (ou neste caso linhas ou capítulos) renega brutalmente quem ama, sentindo-se, segundo as suas palavras, enojado. Como se poderá sentir nojo de quem se ama mesmo sendo sua irmã? Esta é a minha opinião, tenham a vossa. Recordo-me que perto do fim da narrativa, Ega reconforta o seu amigo Maia dizendo que a vida só é vivida na sua plenitude e intensamente quando ligada à paixão e ao amor.

Apesar de gostar do livro sou incapaz de não ligá-lo, devido ao seu final trágico, a uma certa melancolia e negrume, onde três vidas, três jovens ficam muito aquém de um radioso e proeminente futuro. Como diz Ega: três vidas interrompidas. Eu sinto que Eça neste livro escreve o que Amália canta: “tudo isto é triste, tudo isto é Fado.”

Escrito por Diogo Santos

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