Nome do autor: García Márquez, G.
Título do livro: Cem anos de solidão
Data de edição: 1997
Sinopse: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.”
Com estas palavras começa Cem anos de solidão, obra-prima da literatura contemporânea, traduzida em todas as línguas do mundo, que consagrou definitivamente Gabriel García Márquez como um dos maiores escritores do nosso tempo.
A fabulosa aventura da família Buendía-Iguarán, com os seus milagres, fantasias, obsessões, tragédias, incestos, adultérios, rebeldias, descobertas e condensações, são a representação, ao mesmo tempo, do mito e da história, da tragédia e do amor do mundo inteiro.
Classificação: 5 (imperdível)
Opinião pessoal: Num estado absoluto de rendição, posso apenas dizer que, muito embora esperasse mais do seu final, é um livro de uma profundidade imensa e de uma qualidade soberba. Como tal, muito ficará por se dizer desta obra.
Uma primeira impressão recai no sentido do inexpressável e do indizível, muito devido à sua carga emocional, ora inebriante ora angustiante. Deste modo, sente-se, alternadamente, momentos de estranheza, de delírio, de exaltação, de explosão, de compaixão, de compreensão, de declínio, de vazio e de aniquilamento. Não é de todo fácil dissolver-me em palavras, mas em suma, é uma obra que disseca a fragilidade humana, num sentido quase imperceptível e existencial.
De forma equitativa, a menção ao simbolismo é outro aspecto a considerar, sendo os mais evidentes os quatro elementos e o sistema de numeração. Dos quatro elementos podem fazer-se conexões meramente indicativas, embora idiossincráticas: da água temos o chuvisco quadriénio e uma posterior e ininterrupta seca; do fogo temos a guerra e o incêndio; do ar temos a elevação de Meme; da terra temos as questões fúnebres e os rituais de Rebecca.
Relativamente ao número sete, podemos enunciar, segundo a tradição cristã, os sete pecados mortais e as sete virtudes, assim como também as sete notas musicais e a semelhança à ondulação marítima. Assim, dos pecados mortais temos: a gula (Aureliano Segundo), a luxúria (Pilar Ternera), a ganância (José Acardio), a preguiça (José Acardio), a vaidade (Fernanda), a inveja (Amaranta) e a ira (coronel Aureliano Buendía). Quanto às virtudes, temos: a castidade (Meme), a generosidade (Rebecca), a temperança (Úrsula), a diligência (Melquíades), a paciência (coronel Gerineldo Márquez), a caridade (Petra Cotes) e a humildade (Santa Sofia de la Piedad). Os sacramentos cristãos também se encontram presentes, mas com uma carga moral em menor extensão.
Verifica-se, assim, no decorrer das gerações e numa mescla de lutas internas e nacionais, de enganos, de cumplicidades, de mentiras, de invejas e de segredos, uma decadência inocultável, como se se tratasse de uma partitura musical em ascensão à procura do negrume e do abismo, em análoga proporção com as notas musicais. É desta forma que o intuito da perfeição, que se manifesta sob um ciclo histérico e irrepetível de sete gerações, sai, assim malogrado.
Uma obra magnânime que não deixa, certamente, ninguém indiferente. Gabriel García Márquez introduz uma lufada de ar fresco na literatura contemporânea ao circundar personagens em torno de representações míticas, de que é exemplo a beleza inalcançável e a inocência última de Meme, a majestosidade de Fernanda e de Pietro Crespi, a alquimia que sempre acompanha Melquíades, as borboletas que escoltam Mauricio Babilónia..
Damo-nos conta, com alguma melancolia, da efemeridade do tempo, das mortes inevitáveis, dos desgostos e dos sofrimentos constantes e do esquecimento cada vez mais visível e cerrado. Talvez por todas estas razões nos sintamos tantas vezes perdidos num lamaçal de solidão.
Nas palavras de Pablo Neruda, “este é o melhor livro escrito em castelhano desde D. Quixote.”
Escrito por philobiblon