Arquivo para Agosto, 2008

Leitura 35

Nome do autor: García Márquez, G.

Título do livro: Cem anos de solidão

Data de edição: 1997

Sinopse: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.”

Com estas palavras começa Cem anos de solidão, obra-prima da literatura contemporânea, traduzida em todas as línguas do mundo, que consagrou definitivamente Gabriel García Márquez como um dos maiores escritores do nosso tempo.

A fabulosa aventura da família Buendía-Iguarán, com os seus milagres, fantasias, obsessões, tragédias, incestos, adultérios, rebeldias, descobertas e condensações, são a representação, ao mesmo tempo, do mito e da história, da tragédia e do amor do mundo inteiro.

Classificação: 5 (imperdível)

Opinião pessoal: Num estado absoluto de rendição, posso apenas dizer que, muito embora esperasse mais do seu final, é um livro de uma profundidade imensa e de uma qualidade soberba. Como tal, muito ficará por se dizer desta obra.

Uma primeira impressão recai no sentido do inexpressável e do indizível, muito devido à sua carga emocional, ora inebriante ora angustiante. Deste modo, sente-se, alternadamente, momentos de estranheza, de delírio, de exaltação, de explosão, de compaixão, de compreensão, de declínio, de vazio e de aniquilamento. Não é de todo fácil dissolver-me em palavras, mas em suma, é uma obra que disseca a fragilidade humana, num sentido quase imperceptível e existencial.

De forma equitativa, a menção ao simbolismo é outro aspecto a considerar, sendo os mais evidentes os quatro elementos e o sistema de numeração. Dos quatro elementos podem fazer-se conexões meramente indicativas, embora idiossincráticas: da água temos o chuvisco quadriénio e uma posterior e ininterrupta seca; do fogo temos a guerra e o incêndio; do ar temos a elevação de Meme; da terra temos as questões fúnebres e os rituais de Rebecca.

Relativamente ao número sete, podemos enunciar, segundo a tradição cristã, os sete pecados mortais e as sete virtudes, assim como também as sete notas musicais e a semelhança à ondulação marítima. Assim, dos pecados mortais temos: a gula (Aureliano Segundo), a luxúria (Pilar Ternera), a ganância (José Acardio), a preguiça (José Acardio), a vaidade (Fernanda), a inveja (Amaranta) e a ira (coronel Aureliano Buendía). Quanto às virtudes, temos: a castidade (Meme), a generosidade (Rebecca), a temperança (Úrsula), a diligência (Melquíades), a paciência (coronel Gerineldo Márquez), a caridade (Petra Cotes) e a humildade (Santa Sofia de la Piedad). Os sacramentos cristãos também se encontram presentes, mas com uma carga moral em menor extensão.

Verifica-se, assim, no decorrer das gerações e numa mescla de lutas internas e nacionais, de enganos, de cumplicidades, de mentiras, de invejas e de segredos, uma decadência inocultável, como se se tratasse de uma partitura musical em ascensão à procura do negrume e do abismo, em análoga proporção com as notas musicais. É desta forma que o intuito da perfeição, que se manifesta sob um ciclo histérico e irrepetível de sete gerações, sai, assim malogrado.

Uma obra magnânime que não deixa, certamente, ninguém indiferente. Gabriel García Márquez introduz uma lufada de ar fresco na literatura contemporânea ao circundar personagens em torno de representações míticas, de que é exemplo a beleza inalcançável e a inocência última de Meme, a majestosidade de Fernanda e de Pietro Crespi, a alquimia que sempre acompanha Melquíades, as borboletas que escoltam Mauricio Babilónia..

Damo-nos conta, com alguma melancolia, da efemeridade do tempo, das mortes inevitáveis, dos desgostos e dos sofrimentos constantes e do esquecimento cada vez mais visível e cerrado. Talvez por todas estas razões nos sintamos tantas vezes perdidos num lamaçal de solidão.

Nas palavras de Pablo Neruda, “este é o melhor livro escrito em castelhano desde D. Quixote.”

Escrito por philobiblon

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Leitura 34

Nome do autor: Queiroz, E.

Título do livro: Os Maias

Data de edição: 2003

Sinopse: “A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida (…) pela Casa do Ramalhete, ou (…) o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas (…) tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da senhora D. Maria I (…). O nome de Ramalhete provinha decerto de um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar heráldico do escudo de armas, que nunca chegara a ser colocado, e representando um grande ramo de girassóis atado por uma fita onde se distinguiam letras e números de uma data.”

Classificação: 5 (imprescindível)

Opinião pessoal: Este é um livro muito especial para mim, por várias razões. Especial pela pessoa que me aconselhou a lê-lo, especial pelo tempo que me acompanhou (e que foi mesmo muito tempo) e especial pelo que aprendi com ele. Sendo do meu ponto de vista um livro complexo, não deixa nunca de ser um livro bastante interessante, tanto pelo cariz factual social e político da época, sempre muito bem enquadrada por Eça de Queiroz, como pela história em si.

Esta leitura permitiu-me, através da descrição de Eça, ver como as “tricas”, os tiques e o provincianismo, quase saloio da suposta “alta sociedade” portuguesa, pouco mudaram em duzentos anos, encontrando-se aqui e ali retratos quase perfeitos dos dias de hoje. Só mudaram mesmo o bric-a-brac e as espanholas, que passaram a ter sotaque brasileiro ou ucraniano. As elites intelectuais parecem mais balofas que as dos dias de hoje, talvez por não existir partidos de esquerda, ou melhor, comunistas no parlamento. No entanto, Eça descreve claramente as “trocas e baldrocas” da politiquice caseira em que pouco se debatem os problemas do país, preocupando-se mais com devaneios, vaidades e orgulhos fúteis; enfim, onde muito se fala e pouco de faz. O governo das elites para as elites: também aqui vejo similaridades, pois quando ligo o canal parlamento parece que estou a ver Eça a descrever os deputados que discutem o significado da palavra animal.

É neste emaranhado de gente surge uma das minhas personagens preferidas: João da Ega (será coincidência a semelhança com o próprio Eça de Queiroz?), alguém contra-corrente, diferente, pensante e não alinhado, embora aburguesado como todas as demais personagens. Contudo, a sua irreverência, o seu dom da palavra guia-nos como um foco luz por uma sociedade que, não diria das trevas, mas claramente cinzenta e estática. Não admira que o benjamin Maia se sinta pesado, “velho”, enfadado com aquilo que o rodeia, apenas abanado pela chegada dessa nova mulher misteriosa, bonita e “Chic a valer”.

Desde do início que senti fragilidade na personagem de Carlos da Maia, não tendo que ser um louco apaixonado como João da Ega (pois esse lugar na narrativa já estava ocupado), vejo o jovem Maia como alguém muito igual aos demais, apenas iluminado pela paixão e pela beleza de uma mulher. Revejo-o como uma personagem sem a força do seu avô, fraco e sem muito conteúdo e que em muito pouco tempo (ou neste caso linhas ou capítulos) renega brutalmente quem ama, sentindo-se, segundo as suas palavras, enojado. Como se poderá sentir nojo de quem se ama mesmo sendo sua irmã? Esta é a minha opinião, tenham a vossa. Recordo-me que perto do fim da narrativa, Ega reconforta o seu amigo Maia dizendo que a vida só é vivida na sua plenitude e intensamente quando ligada à paixão e ao amor.

Apesar de gostar do livro sou incapaz de não ligá-lo, devido ao seu final trágico, a uma certa melancolia e negrume, onde três vidas, três jovens ficam muito aquém de um radioso e proeminente futuro. Como diz Ega: três vidas interrompidas. Eu sinto que Eça neste livro escreve o que Amália canta: “tudo isto é triste, tudo isto é Fado.”

Escrito por Diogo Santos

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Leitura 33

Nome do autor: Cabral, J.

Título do livro: Nómada

Data de edição: 2004

Sinopse: Uma sequência de acontecimentos – confusão à porta de uma discoteca, uma boleia de um estranho, o roubo de um automóvel – conduz uma jovem a uma viagem sem rumo.

Mais do que um retrato do Portugal dos nossos dias, esta obra revela, na acidez da narrativa, a desilusão e o desencanto de uma juventude que procura na evasão uma forma de suportar a realidade.

Nómada é o relato cru dessa fuga ao quotidiano, onde personagens e situações inesperadas se cruzam a um ritmo vertiginoso, não deixando espaço para o leitor respirar.

Classificação: 2 (dispensável)

Opinião pessoal: Não é de todo uma obra original: à semelhança do livro Ricos, Bonitos e Loucos de Manuel Arouca, escrito em 1989, Nómada versa sobre uma geração absolutamente frívola e desconjuntada.

Numa escrita pouco convencional, predominam como grandes temas a criminalidade, a toxicomania e o sexo, numa patente crítica social, roçando a presunção, a histeria e o preconceito.

O retrato que Joana Cabral pretende elaborar está muito longe da realidade portuguesa, porque aquilo que acontece no mundo lisboeta não deve, de forma alguma, ser generalizado a um plano nacional. Joana Cabral cai, assim, na esparrela de, ao querer inovar, cair no mais ridículo engano.

Escrito por philobiblon

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