Arquivo para Julho, 2008

Leitura 32

Nome do autor: Böll, H.

Título do livro: O Anjo Mudo

Data de edição: 2003

Sinopse: “Pisou cacos de vidro e assustou-se: o seu coração disparou e sentiu-se tremer: à direita do nicho escuro havia alguém, alguém que não se movia; tentou dizer algo que soou como um “olá”, mas a voz estava fraca de medo e o bater frenético do coração atrapalhava-o. A criatura no escuro não se moveu: tinha nas mãos uma coisa que parecia uma bengala – ele aproximou-se vacilante e mesmo depois de ter percebido que era uma estátua o coração não se acalmou.”

Classificação: 5 (imperdível)

Opinião pessoal: É difícil falar de um livro tão delicado como este, onde o Amor nasce de uma solidão imensa, de uma tristeza infindável, de uma pobreza quase atroz e de um vazio tão existencial, tão puro, tão magnânimo.

A narrativa inicia-se num trilho medonho de descontinuidade, de aniquilamento, de pobreza e de desconcerto, enquanto vamos, página a página e com a mesma lentidão com que tragamos a angústia inaugural, descortinando o resplandecer de uma esperança, para imaginarmos outra e outra até ao infinito. Descreve, em suma, amores e dores de várias taxionomias, num círculo quase vicioso de incertezas.

Um livro fabuloso que nos ensina a lição mais primitiva, e como tal a mais negligenciada, do ser humano: podemos perder tudo quanto temos, mas jamais estaremos sós enquanto o Amor, seja ele de que espécie for, viver dentro de nós.

Opinião de Werner Bellman: O novo romance começa no dia do armistício. O que então se passa não são atitudes grandiosas, nenhuma “ascensão”, mas sim o verdadeiro destino humano: o perigo constante! Da guerra não se conta nada, são pouquíssimas as alusões ao decurso externo do pós-guerra. Heinrich Böll descreve unicamente os seres humanos daquela época. Através dessas pessoas aprendemos que já é muito quando conseguimos, ao menos, sentir o sopro da alma, quando nos atinge um único raio de amor, quando conseguimos salvar, do vale soterrado da fé, a Luz Eterna. É uma história de amor, clara e seca, contada com a austeridade da geração dos “retornados”, que sabe que não existe pátria neste mundo. A narração parece, inicialmente, brutal e realista, mas não é o realismo “gritante”. Com mão delicada, com mão quase perversamente delicada, Böll guia-nos através do abandono definitivo de homens aos quais resta tão-somente a vida. Deste livro pode mais uma vez dizer-se o que já foi dito de outras publicações suas anteriores.

Escrito por philobiblon

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Leitura 31

Nome do autor: García Márquez, G.

Título do livro: A aventura de Miguel Littín, clandestino no Chile

Data de edição: 2000

Sinopse: Esta é a verdadeira história do realizador chileno que, proibido de entrar no seu país, aí filmou clandestinamente durante seis semanas. Este livro de Gabriel García Márquez é, pelo método da investigação e pelo carácter do material, uma reportagem. Mas acima de tudo é a reconstituição emocional de uma aventura muito mais íntima e comovedora.

Classificação: 3 (bom)

Opinião pessoal: Uma narrativa documentativa sobre um dos cinco mil exilados com proibição absoluta de regressarem ao Chile: o realizador de cinema Miguel Littín.

Um livro breve cuja inovação passa, essencialmente, por uma perspectiva meramente histórica da ditadura de Pinochet. Não obstante, o que torna este livro tão peculiar é a sua visão de saudade, clandestinidade e repressão, patente na voz de um indivíduo que representa toda uma nação.

Ideal para quem se interessa, holisticamente, por cinema e política.

Escrito por philobiblon

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Leitura 30

Nome do autor: Peixoto, L. J.

Título do livro: Cal

Data de edição: 2007

Sinopse: “As mãos de Ana eram velhas. Os dedos eram grossos e tinham riscos feitos pela lâmina da navalha de retalhar azeitonas. As palmas das mãos eram grossas e tinham o toque da superfície serrada de um tronco. As mãos do velho Durico eram magras e escuras. As costas das mãos, quando as estendia debaixo de um candeeiro de petróleo, eram suaves. As unhas eram certas por serem cortadas com uma navalha, à noite, quando a fogueira lhe iluminava o rosto. As palmas das mãos cheiravam a terra castanha e a fumo. As mãos de Ana passaram a corda para as mãos do velho Durico.”

Classificação: 4 (muito bom)

Opinião pessoal: Nas obras de José Luís Peixoto predomina, como característica inalterável, a remota paisagem Alentejana, e esta, por sua vez, simboliza uma imensa solidão, numa constante dicotomia: a beleza e a atrocidade, o vazio e a completude, o esquecimento e a memória, a vida e a morte de (múltiplas) vidas.

Composto por estórias emaranhadas que, às tantas, até nos dão a ilusão de uma complementaridade, Cal tem a particularidade de uma individualidade que nos envolve e, simultaneamente, nos angustia.

Escrito por philobiblon

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