Arquivo para Março, 2008

Leitura 28

Nome do autor: Kafka, F.

Título do livro: A metamorfose

Data de edição: 2003

Sinopse:Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, durante o sono,numa espécie monstruosa de insecto.

Permaneceu de costas, as quais era duras como uma couraça, e, erguendo um pouco a cabeça, conseguiu ver a saliência do seu grande ventre castanho, dividido em nítidas ondulações. As cobertas escorregavam, irremediavelmente, do alto da curva, e as pernas de Gregor, lamentavelmente finas, comparadas ao seu tamanho primitivo, agitavam-se, impotentes, diante dos seus olhos.”

Classificação: 3 (bom)

Opinião pessoal: Em parte decepcionante, por tanta bajulação escrita sobre este livro. Em algumas opiniões lidas a respeito deste título, pressenti uma estranha obrigação, como se ler Kafka fosse forçosamente imperativo, forçosamente esplêndido. Não obstante, reconheço que é um livro que nos faz, em muitos aspectos, pela sua tão actual perspectiva, pensar em geral na condição humana e em particular na sua correspondente limitação. Como se fosse uma bola de neve em crescimento gradual, o equilíbrio homeostático familiar não existe, porque permanece com eles um empecilho: um insecto horrendo, empoeirado, peganhento.

Quase monocórdico, em parte devido aos cenários envolventes, assiste-se a uma misantropia contínua, a uma configuração nauseante, a uma dissolução e fusão gregária, a uma metamorfose da estratificação social: o sustentador passa a sustentado e vice-versa. Verifica-se uma ruptura na inércia familiar, que abarca três elementos, e, consequentemente, na inépcia de um quarto, anteriormente dinâmico e motivado: os pais de Gregor voltam a trabalhar, independentemente da sua já avançada idade, e Grete, com dezasseis anos, inicia-se (também) no mundo laboral. Gregor, por seu turno, repudiado e esquecido pela sua família, abandonado quase à sua sorte, só (interna e externamente) em si mesmo, vai sobrevivendo na sua incapacidade de ser fazer visível aos outros.

Escrito por philobiblon

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Leitura 27

Nome do autor: Christian Grondahl, J.

Título do livro: Silêncio em Outubro

Data de edição: 2000

Sinopse: “A Astrid na amurada, de costas para a cidade. O vento levanta-lhe o cabelo castanho como uma bandeira esfiapada. Está de óculos escuros e sorri. Há uma afinidade perfeita entre a cidade e o branco dos dentes dela nesta fotografia que tirei há sete anos, pela tarde, num dos pequenos cacilheiros do Tejo. Só à distância se percebe por que se chama ‘cidade branca’ a Lisboa, quando as cores se misturam em reflexos de sol: a luz baica incide horizontalmente nas casas ao longe, que se erguem atrás umas das outras sobre o Terreiro do Paço, nas colinas do Bairro Alto e de Alfama, no outro lado do rio. Há um mês que partiu. Ainda não tive notícias dela.”

Classificação: 2 (dispensável)

Opinião pessoal: Um livro fraco que apenas, de quando a quando, se nos entranha efectivamente na pele. E não sei precisar se esta opinião é devido à elevada expectativa sentida em mim mesma por optar por autor menos conhecido, se devido à capa fotográfica de Edward Hopper, da qual gosto imenso.

Numa perspectiva holística, um livro tendencialmente fundado por rábulas e frases feitas, onde predomina a delineação de uma crise existencial, que cessa sempre com o típico “disse que disse”. Terminámos o livro com a sensação que o próprio autor, às tantas, se perdeu em demasiadas expectativas e especulações. Enfim, um livro que, em minha perspectiva, não oferece ao leitor criação alguma digna de registo.

Um aspecto notavelmente favorável prende-se com o facto de descrever localidades de Portugal, ainda que sumariamente, nomeadamente de Trás-os-Montes, Porto, Aveiro, Coimbra e Lisboa. Fiquei efectiva e inicialmente surpresa por constatar que um dinamarquês viu em Portugal algum conteúdo paisagístico para divagar. Não obstante, até esse factor se revelou profusamente estratégico.

Escrito por philobiblon

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