Arquivo para Janeiro, 2008

Leitura 25

Nome do autor: Auster, P.

Título do livro: Inventar a solidão

Data de edição: 2004

Sinopse: Num registo íntimo e pessoal, Paul Auster evoca aqui algumas experiências da sua infância, quando as tentativas (e os frequentes fracassos) de relacionamento com o pai marcavam uma rotina familiar difícil. E, paralelamente, a sua própria experiência enquanto pai.

Por vezes comovente, outras vezes hilariante, Inventar a Solidão é um mergulho no mundo das emoções genuínas e da sentimentalidade. Há neste livro experiências com as quais todos nos podemos identificar – quer como filhos, quer como pais – e considerações sobre a verdadeira natureza das relações familiares. Um livro sobre a família como só Auster podia escrever – experimental mas sempre sentido, capaz de evitar sentimentalismos sem ser sentimentalmente frio.

Classificação: 3 (bom)

Opinião pessoal: Radicalmente oblíquo ao estilo Austeriano: uma narrativa irrepetível e idiossincrática, onde a sua verdade é apenas a sua verdade e cujo mundo pintado por si é apenas o mundo que ele mesmo vê.

Constituído por duas partes (Retrato de um homem invisível e o Livro da Memória), este livro é de uma sensibilidade quase filosófica, quase existencial. E não obstante, é-lo somente isso. Envolvente, sim, mas não o suficiente para se tornar inesquecível.

Elaborado sob um prisma temporal, em processos constantes de analepses e prolepses, cujos leitores têm de estar particularmente atentos, Paul Auster questiona-nos, questionando-se, sobre o sentido da vida em decursos inversos: enquanto filho, enquanto pai, enquanto Ser neutro e desenraizado do mundo.

Poder-se-ia dizer, assim, e sem cair em grandes equívocos, que o presente livro é uma espécie de autobiografia de Paul Auster.

Escrito por philobiblon

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Balanço de 2007

Os Imprescindíveis:

  • O mesmo mar 
  • Odisseia
  • Poemas de Konstantinos Petrou Kavafis
  • Um amor feliz
  • A insustentável leveza do ser

Os muito bons:

  • A questão de Bruno
  • Rua do arsenal
  • O jogo de morte: a variante de Lüneburg
  • O homem que só gostava de números
  • Os Pensadores (Os Criadores, Os Descobridores)
  • O fantasma dos Canterville e outros contos

Escrito por philobiblon e J

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Leitura 24

Nome do autor: Botelho, F.

Título do livro: Gritos da minha dança

Data de edição: 2003

Sinopse: “Mas o Doutor efervesce, efervesce, efervesce, quer Adélia. Então Amélia, um dia (uma noite), em desespero de causa, incapaz de dar ao Doutor a felicidade total, incapaz ainda de dobrar Adélia à impura satisfação de transitórios apetites carnais, propôs ao Doutor: Já que tão bem lhe quer, case com ela, peça-lhe!”.

Recheado de inéditos, e que fique desde já esclarecido para que ninguém se engane ou caia em confusões: não será determinantemente uma biografia, muito menos uma autobiografia, se bem que de ambas tenha a sua parte. Terá também, embora de forma desordenada, ao sabor de apetites e caprichos pontuais, esta não poderia faltar inevitavelmente. Na sua breve introdução Fernanda Botelho promete-nos que o seu livro não terá certamente um semblante negro, “já que de negro não me vesti nem a vida me vestiu, só de um antracite carregado, um ou outro mais leve e, vá lá, pungente”.

Classificação: 3 (bom)

Opinião pessoal: Livro a que rapidamente fazemos alusão à expressão “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Abissalmente complexo, ora bizarro ora desconexo, emaranha-se num compasso rítmico de soantes, consoantes, vogais, fonemas, neologismos, entre outros. Enfim, em suma, uma mistura satírica e deliciosamente selvática.

De uma genialidade perfeita da sintaxe, aliás, raro livro de uma linguagem sedutora, este obra literária é tanto encantadora e inebriante, quanto assustadoramente incompreensível e resoluta. Composto, penetrando em si mesmo a respectiva singularidade, poder-se-ia, analogamente, comparar este livro a uma enciclopédia de conhecimento ao nível da língua portuguesa: foi, por ventura, o livro que me obrigou, recorrentemente, ao uso de um dicionário.

Um excelente entretenimento.

Escrito por philobiblon

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Leitura 23

Nome: Gaarder, J.

Título do livro: A rapariga das laranjas

Data de edição: 2003

Sinopse: O que fazer quando um pai, falecido demasiado cedo para nos lembrarmos dele, decide falar com o filho, através de uma carta escrita há onze anos? Esta é a experiência de Georg Roed, de quinze anos, quando a família descobre a carta do seu pai. Juntos, Georg e o pai vão dialogar e manter finalmente a conversa de adultos que não puderam ter em vida. Nessa carta, Jan Olav, o pai de Georg procura uma bela rapariga carregada com um saco de laranjas. Nada o demove, nem o facto de não saber nada dela, nem o nome. Procura-a com todo o entusiasmo da juventude, enquanto imagina qual a razão que a leva a atribuir um valor tão grande às laranjas que ele, desastradamente, fez rolar nesse primeiro encontro. Georg mergulha nesta aventura descrita com grande paixão pelo pai, falecido quando ele tinha apenas quatro anos.

Classificação: 2 (dispensável)

Opinião pessoal: Provavelmente por melhor convir a um público juvenil, acabei por acolher esta obra com um grave desapontamento: é possível que, após a leitura de A Vida é Breve há uns anos atrás, esperasse bastante mais desta segunda leitura. Hipotética e abstractamente, faltou um certo conteúdo, uma certa complexidade, uma certa elaboração.

Através de uma carta transposta intencionalmente de pai para filho, do passado para o presente, relata-nos as angústias convencionais perante a morte. O que nele é primordialmente retratado é a busca incessante para o sentido último da vida (ser ou não ser) assim como para a razão resoluta da morte (seremos todos pó e cinza ou a continuação livre da vida?).

Não sei se corresponderá a uma tendência natural do autor, mas é evidente a sua insistência nesta problemática intemporal, nesta dicotomia vida e morte.

Escrito por philobiblon

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Leitura 22

Nome do autor: Auster, P.

Título do livro: O livro das ilusões

Data de edição: 2003

Sinopse: Após a morte da mulher e dos filhos num acidente de avião, David Zimmer entra em depressão. Para tentar fugir ao desespero, entrega-se à escrita de um livro sobre Hector Mann, um virtuoso do cinema mudo dado como desaparecido em 1929.

Publicada a obra, David aceita traduzir as Memória do túmulo, de Chateaubriand, e refugia-se num lugar perdido para fazer face à hercúlea tarefa que se impôs. É então que recebe uma estranha carta proveniente de uma pequena cidade do Novo México, supostamente escrita pela mulher de Hector: “Hector leu o seu livro e gostaria de encontrá-lo. Está interessado em fazer-nos uma visita?”. Trata-se de uma impostura ou Hector Mann está realmente vivo? Zimmer hesita, até que uma noite uma jovem mulher lhe bate à porta e o obriga a decidir-se, transformando para sempre a sua vida. Contada pela jovem mulher, a história do extraordinário e misterioso Hector Mann é o fio condutor do presente romance. Mas o poder narrativo de Paul Auster transporta-nos bem para lá da magia do cinema mudo e mergulha-nos no coração de um universo muito pessoal, em que o comido e o trágico, o real e o imaginário, a violência e a ternura se misturam e dissolvem.

Classificação: 4 (muito bom)

Opinião pessoal: Parece-me improvável que alguém consiga, verdadeiramente, ficar indiferente a este livro.

Em minha opinião, e numa primeira análise à escrita de Paul Auster, diria que é o que de melhor li até agora no que toca à simbiose entre a palavra e a imagem, isto é, entre a escrita, enquanto produto final do livro; e a imagem, enquanto produto interpretativo e individual do cinema.

Não obstante, desenganem-se aqueles que esperam um livro de reflexão ou de crítica, de motivações intrínsecas ou extrínsecas ou de mudanças insufladas em nós. Corresponde tão-somente a uma espécie de biografia falsificada, inserida em tantas outras que lhe estão subjacentes, que Paul Auster engenhosamente elaborou, com um mundo quase ausente de palavras, e isto, como é óbvio, chega a um estado de contradição total do que afinal é a representação livreira/literária e a representação visual/cinematográfica. Ou seja, o que ficar incutido dentro de nós depois de lermos este livro, será apenas a interpretação de imagens idiossincráticas. Mas, por muito translúcida que pareça esta argumentação, não deixamos de nos questionar ainda assim: O que é um livro sem a visualização mental? E o que é a visualização mental sem palavras ou significados?

Às vezes demasiado fácil nos acontecimentos decorrentes, num fio condutor de causa-feito forçado, como se verifica no amor que floresce entre David e Alma, o livro parece-me quase brilhante. Toca profusamente num mundo prioritário e primariamente inaudível, com tal delicadeza e simplicidade, que é impossível que não retenhamos algumas dessas imagens para sempre na nossa cabeça (é difícil esquecer Mr. Nobody e The Inner Life of Martins Froust).

A escrita de Paul Auster é claríssima, o que não significa que seja nítida e transparente como a água, como a verdade. Quanto ao título, este é perfeito, principalmente para os mais distraídos como eu.

Escrito por philobiblon

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