Nome do autor: Wilde, O.
Título do livro: O fantasma dos Canterville e outros contos
Data de edição: 2001
Sinopse: “Quando o Sr. Hiram B. Otis, o Ministro Americano, comprou o espaço da Coutada de Canterville todos lhe disseram que era uma decisão insensata porque não havia dúvida alguma de que aquela terra estava assombrada. O próprio Lorde Canterville, que era um homem de honra imaculada, achou melhor mencionar o assunto ao Sr. Otis no momento de discutir os termos do contrato. – Mesmo nós tivemos problemas em viver lá e tivemos de partir (…) – Milord – respondeu o Ministro -, eu pago o valor da mobília e do fantasma. Venho de um país moderno, onde temos tudo o que o dinheiro pode comprar.”
Classificação: 4 (muito bom)
Opinião 1: Oscar Wilde (1854-1900) nasceu em Dublin, filho de um eminente cirurgião e de uma famosa poestisa nacionalista. Foi educado no Trinity College da sua cidade natal e, mais tarde, no Magdalen College de Oxford, onde iniciou o movimento estético, cujo postulado central era o de “a arte pela arte”. Foi um jovem de vestimenta e comportamento extravagantes, que se destacou como estudante e escritor novato em Oxford. Casou-se com Constance Lloyd, em 1884, e teve dois filhos. Escreveu várias histórias para crianças e short-stories: O Príncipe Feliz (1888) e a colecção de contos, O Crime de Lord Arthur Savile (1891), são alguns deles. em 1891, apresentou o seu único romance, o extraordinário O retrato de Dorian Gray, e a este sucedeu uma série de brilhantes comédia, dotadas de engenhosos diálogos e do seu característico estilo epigramático, uma constante na obra de Wilde. Destas destacam-se O leque de Lady Windermere (1892), Uma mulher sem importância (1983), Um marido ideal (1895) e A importância de se chamar Ernesto (1985).
Nessa altura, quando desfrutava de maior êxito, foi vítima de um sensacionalista processo judicial que escandalizou a sociedade vitoriana. Acusado de sodomia, foi condenado a dois anos de trabalhos forçados. depois de cumprida a pena, estava destroçado física e espiritualmente, além de se encontrar na bancarrota. Repudiado pelos seus concidadãos, refugiu-se em França sob um nome falso. Aí publicou, antes de morrer, A balada do cárcere de Reading (1898). Agudo crítico social e autor de obras universais, o seu indiscutível génio e o seu talento contribuíram para que, com o tempo, recebesse o reconhecimento que lhe fora arrebatado.
Estes contos foram escritor por Wilde para crianças dos oito aos oitenta anos, daí que neles convivam níveis de literatura tão distintos. Escritos durante o primeiro período da produção literária do escritor irlandês, a sua elaboração coincide com a infância dos seus filhos, como meio de lhes incutir valores morais. Neles é comum que o bom e puro triunfe, ainda que a tragédia e a melancolia não sejam elementos estranhos aos argumentos.
Por outro lado, Wilde, possuidor de um ardente e engenhoso espírito crítico, em história como O fantasma dos Canterville (1887), graceja com a superficialidade, tanto britânica como norte-americana. A sua crítica é sempre extremamente divertida e talentosa, carregada de fina ironia.
Sucessivamente, em contos como O Príncipe Feliz, O Gigante Egoísta, O Amigo Dedicado, A Criança Estrela e O Aniversário da Infanta, publicados entre 1888 e 1891, Wilde disseca os defeitos e as virtudes dos seus contemporâneos que, no final do século XIX, ainda viviam imersos no seio da rígida sociedade vitoriana. Os contos, transbordando fantasia e imaginação, também falam de sacríficio, de amor, de recompensa e de castigo, e possuem uma clara intencionalidade moral, sem esquecer a promoção do gosto pela beleza e pela arte.
Estas histórias, buriladas em leituras privadas ao longo dos anos, constituem o primeiro êxito literário do autor e encontram-se entre o melhor das short-stories.
Opinião de philobiblon: Numa apreciação global, diria que os contos são realmente bons e que apelam muito à nossa reflexão individual e grupal, mesmo que se anunciem, tendenciosamente, para um público infantil. Perante o actual automatismo da cidadania, estas narrativas surgem como verdadeiras lufadas de ar fresco de boas condutas, de novas consciencializações. Óptimo para crianças curiosas, que desejam descobrir o que há além dos contos populares, e adultos inconformados com a estandardização da sociedade.
Assim, o objectivo, em particular, desta crítica não é expor exactamente aquilo em que nos faz pensar cada um deles, pois não é uma coisa totalmente intrínseca, uma vez que há uma mensagem global extrínseca e, como tal, percebida por todos aqueles que os lerem.
O livro que disponho apresenta-se como uma espécie de colectânea, onde estão presentes os contos O fantasma dos Canterville, O Príncipe Feliz, O Rouxinol e a Rosa, O Gigante Egoísta, O Amigo Dedicado, O Notável Foguete, O Aniversário da Infanta, O Filho-da-Estrela, O Jovem Rei e O Pescador e a sua Alma. Desta forma, e porque todos são extraordinários e inesquecíveis, elaborados de uma imaginação belíssima que diria quase que viciante, fiz um breve comentário relativamente àqueles que mais me sensibilizaram.
O fantasma dos Canterville: Acima de tudo, divertidíssimo. Dei por mim a rir de uma coisa tão “séria” como é o assunto referente aos fantasmas. Depois, numa segunda perspectiva, revela-se como uma sublime sátira à sociedade (o Britânico temerário; o Americano corajoso), como um hino à Vida, à Morte, ao Perdão, à Tolerância, à Coragem e ao Amor. E duas coisas também bastante importantes: 1) não devemos ter medo do que pertence ao mundo; 2) temos direito a segredos, sejam eles quais forem, sem acusações alheias.
O Príncipe Feliz: Se fossem exequíveis analogias, diria que este é o conto ideal para caracterizar o que somos hoje: egoístas, egocêntricos, cegos. Exibe o que de melhor a humanidade “expirada” pode oferecer a um povo ignorado, esquecido, morto. Por que no fundo, ao vivermos um sonho demasiado ascendente, demasiado mesquinha, acabamos por nos esquecer do Outro que precisa de nós.
O Rouxinol e a Rosa: Verdadeiramente triste e, à sua medida, bastante real. São tantas as “pequenas” coisas que são sacrificadas no nosso quotidiano para sermos felizes, que iremos ser sempre oportunistas na vida e jamais reconheceremos um gesto simples sem que não o manipulemos à partida. Instintivamente, somos programados socialmente para julgarmos que só os mais fortes sobrevivem e, na realidade, nada fazemos para merecer o que de bom a vida nos dá, como é o exemplo uma simples rosa vermelha.
O Amigo Dedicado: Enquanto conto supremo para o público, ensina valores incalculáveis da partilha e da amizade, tão importantes nos dias que correm. Aqueles que sabem o valor de uma amizade desinteressada sentirão uma repulsa inimaginável ao ler este texto; para aqueles que ainda acreditam que a amizade é uma troca incessante de favores, sentir-se-ão esmagados, pois irão reconhecer-se rapidamente no papel do Moleiro. Mas, de qualquer forma, sentir-nos-emos, muitas vezes, como o pequeno Hans, que faz o que faz por uma obrigação implícita, mas também em nome de amizade que julga fazer parte.
O Notável Foguete e O Filho-da-Estrela: A noção de narcisismo no seu melhor. Histórias simples, que as crianças facilmente entendem. Quantos aos adultos, espantar-se-ão com a banalidade com que tais acontecimentos ocorrem no nosso dia-a-dia. Há, de facto, pessoas que não olham para além do seu próprio umbigo.
O Pescador e a Sua Alma: É inevitável que não sintamos, algumas vezes, que estamos a ler uma espécie de Mil e Uma noites. Fornece-nos a outra perspectiva das coisas e a distância que pode haver entre elas. E dá-nos a noção da riqueza, da sabedoria, do amor e da curiosidade. Dizem que a curiosidade matou o gato..
Escrito por philobiblon