Arquivo para Novembro, 2007

Leitura 20

Nome do autor: Hinton, S. E.

Título do livro: Os Marginais

Data de edição: 1990

Sinopse: “Quando saí da escuridão do cinema para a brilhante luz do sol só tinha duas coisas em mente: o Paul Newman e uma boleia para casa. Desejava ter a figura do Paul Newman – que tem um ar duro e eu não -, mas creio que o meu próprio aspecto não é assim tão mau. Tenho um cabelo castanho-claro, quase avermelhado, e olhos de um verde-acinzentado. Quem me dera que fossem mais cinzentos! Odeio quase todos os tipos de olhos verdes… mas é preciso contentar-me com os que tenho. Uso o cabelo muito mais comprido do que a maioria dos rapazes, aparado atrás, comprido à frente e aos lados, mas sou um seboso e na minha vizinhança são poucos os que se ralam com o corte do cabelo. Além disso… o cabelo comprido dá-me um aspecto melhor.”

Classificação: 3 (bom)

Opinião pessoal: Aprecio este livro por uma ou duas razões: em primeiro lugar, porque roça na trilogia comédia, tragédia e drama; em segundo, porque é bastante inteligente, numa perspectiva da própria coerência sequencial, para uma miúda de dezassete anos.

Hinton, sem falsos dramatismos, ao abordar o que a América há décadas tenta descaradamente esconder-nos, mostra o universo de uma criminalidade juvenil, dos anos 60, por vezes forçada (pela a ausência de progenitores ou figuras cuidadoras ou figuras de autoridade), por vezes de regozijo (há um qualquer orgulho ostensivo nos roubos, nas lutas, nas armas, na insensibilidade, na liberdade, etc.).

Simples, mas quase delicado, onde a inocência se desvanece desde o princípio, é um livro que não permite que o leitor se engane: tudo aquilo nunca vai mudar; não há escapatória possível, não há esperança alguma; tudo aquilo vai ser sempre mau, sempre sem finais felizes. É o que se verifica, principalmente, com as personagens Johnny, Bob e Dally.

Se tivermos em conta o ano de lançamento (1967), rapidamente nos apercebemos que se trata de uma leitura nova, fresca, um pouco nua, um pouco crua, um pouco falsa. Tudo o que é descrito neste pequeno livro poderia estar submerso na metáfora kunderiana de kitsch: os contrastes são como que manipulados pela “sociedade” dita social e pela “sociedade” dita criminosa, cuja total inaceitabilidade se esconde entre uma e outra fenda de ambas as classes. A salvação nesta metáfora parece, assim, estar claramente patente nas personagens Ponyboy, Darry e Randy. Por fim, Cherry, atrevo-me a dizer, será a postura na qual a autora mais se identifica, como personagem mediadora destes dois mundos extremos. Ou seja, assume um olhar neutro, ainda que crítico, sobre esta problemática essencialmente socio-económica. O próprio título, Os Marginais, é revelador dessa mesma postura: não são os Socs os marginais, nem tão pouco o são os Sebosos. Ambos constituem parte da culpa, onde não há espaço para desculpabilizações.

Conciso, sem muitas delongas, vai ao cerne das questões sem nunca perder de vista a insuflação pela mudança de mentalidades.

Escrito por philobiblon

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Leitura 19

Nome do autor: Kundera, M.

Título do livro: A Insustentável Leveza do Ser

Data de edição: 2001

Sinopse: Este é um livro onde se olha com um olhar umas vezes melancólico e conformado, outras vezes amargo e revoltado, para o destino de um país, para o destino de um continente, para o destino de uma civilização. E, mais uma vez, só raramente um romance consegue entretecer, da forma como este faz, o destino do homem e o destino do mundo.

A Insustentável Leveza do Ser é seguramente um dos romances míticos do século XX, uma daquelas obras raras que alteram o modo como toda uma geração observa o mundo que a rodeia.

Classificação: 5 (imprescindível)

Opinião pessoal: É acutilante esta tarefa, por duas grandes premissas: a primeira por se prender nas malhas de uma angustiante desumanidade; a segunda por se desdobrar numa complexa teia de contrastes.

Tendo como ponto de partilha uma trama emocional, debruçamo-nos sobre a problemática da separação de uma parte como constituinte de um todo: vivemos assim, página a página, sob o olhar instigador de uma história política enquanto pano de fundo (a invasão da Checoslováquia de 1968), que acarreta, e partilhada por um povo, toda uma carga de tristeza, de alegria, de proibição, de condenação, de êxtase, de ódio, de abnegação, de admiração, de revolta, de submissão, de empatia, de desprezo, de amor..

Num segundo momento, este livro vive dos fulgores dos seus contrastes: o peso versus a leveza, a fidelidade versus a traição, o belo versus o horror, a força versus a fraqueza, a música versus o ruído, o amor versus os encontros eróticos, os símbolos idiossincráticos versus a tábua rasa, os mitos versus a realidade, a liberdade versus o conformismo, a luz versus a escuridão, a alma versus o corpo, os sonhos e os pesadelos versus a realidade, a culpa versus a inocência, a juventude versus a meia-idade, o pudor versus o arrebatamento, o socialismo versus o comunismo, o desprendimento versus o fado, o kitsch versus a total aceitação da merda, a religião versus o poder político.. E por fim, a eterna e constante metáfora a marcar o discurso kunderiano, que, ora se questiona, ora auto-inflige respostas a essas mesmas questões que levanta: tudo é praticamente dado de mão beijada ao leitor, que apreende, assim, não os motivos deste, mas exactamente (e apenas) os sentimentos que decide transpor nas suas personagens, que não são mais do que parcelas do autor. E novamente a eterna ideia da impossibilidade de separação de uma parte do seu todo. E, julgo, ser precisamente neste aspecto que o autor é genial: é em toda esta impossibilidade notória que reside o seu conceito de felicidade: é na eterna repetição (histórica e/ou das partes individuais das personagens mergulhadas no colectivo das mesmas), contrapondo, portanto, e em certa parte, o início do livro, a respeito do eterno retorno de Nietzsche, que encontramos a felicidade tão almejada como uma vertigem.

Mais do que, certamente, considerado como um clássico, deve ser entendido, com toda a legitimidade, como um livro que contempla a mais estranha e intrincada comparticipação das relações humanas: os amores a verterem das mais díspares formas, onde ninguém ama na exacta medida do outro; os incessantes desencontros, sendo os mais evidentes Sabina e Franz pela sua “bagagem emocional”, Thomaz e Simão pela sua incorrigível semelhança e Thomaz e Thereza, onde Karerine se revela, a certa altura, como o melhor intérprete de comunicação, como mediador de uma relação.

Um livro que chora por si só, sem que chegue a ser piegas. Um livro a revelar que o mundo só é mundo se apenas o virmos numa determinada perspectiva, que pode ser: numa perspectiva da traição de Sabina, numa perspectiva da vertigem ou da fidelidade de Thereza, numa perspectiva reconciliadora de Simão, numa perspectiva médica e erótica de Thomaz, numa perspectiva de grito-de-união de Franz, numa perspectiva meramente política, numa perspectiva meramente moral, numa perspectiva meramente histórica, numa qualquer outra perspectiva ou numa perspectiva como soma das partes de todos.

Enquanto posfácio, encontrei a opinião pessoal da Joana Varela (tradutora do livro), que referia a analogia a este livro, a título de Beethoven, como uma partitura musical, não só pelas nuances do próprio enredo (onde cada um, provavelmente, constituiria ainda uma nota musical própria), mas também pela sua própria estrutura, uma vez estar dividido em sete partes, que corresponderia assim às setes notas musicais. Eu acrescentaria a este respeito (já que não me tinha apercebido deste facto até então) a natureza das ondulações marítimas, uma vez que a “oitava” (ondulação marítima) muda de ritmo e inicia um novo ciclo de ondulação marítima. Ou seja, uma suposta oitava parte do livro já não seria a falar de Sabina, Franz, Thomaz, Thereza, Simão, Marie-Claude, Maria-Anne, Karerine, etc., mas outra história qualquer completamente paralela a estes, sem qualquer ligação possível. Quero com isto dizer que estas personagens viveram de facto, mas viveram somente umas para as outras, seja em presença, em imaginação, em ausência…, mas que na morte de cada um, foram, inevitavelmente, caindo no esquecimento irrevogável do mundo.

Escrito por philobiblon

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