Nome do autor: McDermott, A.
Título do livro: Aquela noite
Data de edição: 1987
Sinopse: Sheryl e Rick são dois jovens apaixonados dos anos 60. Eles encontram na sua relação tudo o que sempre lhes faltou. E estaríamos perante um romance perfeito se Sheryl, depois de engravidar, tivesse partido com Rick quando este a veio resgatar n’Aquela noite. A acção narrada em flashback pela vizinha de Sheryl, que, sendo então uma criança, vê o mundo dos adultos com um olhar curioso e, ao mesmo tempo, assustado. Alice McDermott, jovem romancista americana, professora universitária, demonstra com esta sua obra que é uma excepcional contadora de histórias e exímia retratista de pequenos mundos e dos seus habitantes.
Classificação: 3 (bom)
Opinião pessoal: Ainda que se revele com duas décadas de vida, manifesta-se um livro relativamente contemporâneo. Não se denota qualquer denúncia deste facto, o da existência livreira, uma vez que demoramos o olhar no percurso das linhas por nos parecer deveras familiar.
Reflecte toda uma vida tipicamente americana, num bairro tipicamente suburbano deste país. Escrito na voz única de uma pessoa, retrata, não obstante, quatro gerações (a da avó de Sheryl, a da mãe desta – que, como tal, partilhava também uma geração com os restantes pais e mães daquele bairro, pela sua aproximação etária -, a da própria e a das crianças mais novas, nas quais se encontra a presente narradora). Uma narrativa predominantemente nostálgica e multidireccionada, ainda que dominantemente idiossincrática, que apela constantemente a uma memória comovedora, a um suspiro fugido dos lábios, a uma reflexão triste que a vida é mesmo assim: efémera.
Além do acontecimento principal, a de uma luta bairrista pelo nome de Sheryl e Rick, aborda temas como o amor e a morte são, no fundo, tão próximos. A visão de Sheryl, ainda que domada pelo sentimento característico da adolescência, mostra quão sincera e ingénua, e como tal verdadeira, são estas noções da vida. Acreditar que o amor é para sempre exibe-se como uma ideia débil, e ela sabe-o, e o mesmo acontece com a morte. Tanto o amor como a morte têm a capacidade de nos mudar para sempre, de mudar a pessoa que somos, aquilo em que acreditamos, as nossas opções. Transpira aquela impressão de muitos mundos, de múltiplas vidas, de múltiplos esquecimentos. O amor, afinal, parece ser tão temporário quanto a própria vida. Que, afinal, não existem momentos perfeitos, amores inesquecíveis, pessoas especiais. Tudo se torna vago e distante, com o decorrer dos dias, dos sóis e das madrugadas. Tudo acaba, que existem vários tipos de amor e vários tipos de morte. Apenas uma coisa parece ser certa para nós, tal como o foi para as pessoas que circundavam na vida de Sheryl: a vida, com os anos, amargura-nos.
Enfim, são mais importantes as intrínsecas emoções do nosso próprio Eu no curso do livro, do que propriamente o este a manipular-nos, a incutir-nos impressões extrínsecas. É como se o livro fosse uma alavanca para uma melhor compreensão do nosso mundo interno.
Escrito por philobiblon