Arquivo para Agosto, 2007

Leitura 4

Nome do autor: Alexandar Hemon

Título do livro: A Questão de Bruno

Data de edição: 2005 (ASA)

Sinopse: Aleksandar Hemon nasceu em Sarajevo em 1964. Hoje vive nos EUA, para onde foi em 1992, em visita, mal conhecendo a língua inglesa. Começou a escrever em inglês em 1995. A Questão de Bruno, seu primeiro livro, foi considerado uma obra marcante na literatura do século XXI.

Classificação: 4 (muito bom)

Opinião pessoal: Quando, a 6 de Abril de 1992, se iniciou o cerco a Sarajevo, Aleksandar Hemon estava nos Estados Unidos, em visita. Atónito, assistiu pela televisão aos trágicos acontecimentos que acabaram por destruir a sua cidade e por determinar o fim a tantos compatriotas. Acabou por se radicar naquele país, já que era impensável regressar, e aí decidiu recordar o seu país, a sua cidade, os seus amigos, os felizes tempos da sua juventude (quando escreveu o livro tinha 30 anos). Trata-se de um conjunto de histórias, onde se interpenetra, de uma forma perturbrante, a realidade vivida de longe, a ficção, o medo, o sentimento de perda. É impossível ler este livro e não recordar com saudade a beleza enorme daquelas terras e não trazer à memória a história heróica e trágica de Admira Ismic (muçulmana) e Bosko Brkic (cristão).

Escrito por J.

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Leitura 3

Nome do autor: Konstantinos Petrou Kavafis

Título do livro: Poemas (tradução de JM Magalhães e Nikos Pratsinis)

Data de edição: Setembro de 2005 (Relógio d’Água)

Sinopse: No lugar de um resumo, impensável num livro de Poemas, e embora não seja, do meu ponto de vista, dos poemas que mais admiro e cultivo, este é bem demonstrativo de como a voz do passado longínquo pode ser tão actual, em tempos como este de tanta incerteza, angústia e desânimo:

Esperando os bárbaros

Mas que esperamos nós aqui na ágora reunidos?
É que os bárbaros hoje vão chegar!

Mas porque reina no Senado tanta apatia?
Porque deixaram de fazer leis os nossos senadores?

É que os bárbaros hoje vão chegar.
Que leis hão-de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam, que as façam eles.

Mas porque tão cedo se levantou hoje o nosso imperador,
E se sentou na grande porta da cidade à espera,
Oficial, no trono, com a coroa na cabeça?

É que os bárbaros hoje vão chegar.
O nosso imperador espera receber
O chefe. E certamente preparou
Um pergaminho para lhe dar, onde
Inscreveu vários títulos e nomes.

Porque é que os nossos dois bons cônsules e os dois pretores
trouxeram hoje à rua as togas vermelhas bordadas?
E porque passeiam com pulseiras ricas de ametistas,
e porque trazem os anéis de esmeraldas refulgentes,
por que razão empunham hoje bastões preciosos
com tão finos ornamentos de ouro e prata cravejados?

É que os bárbaros hoje vão chegar.
E tais coisas deixam-nos deslumbrados.

Porque é que os grandes oradores como é seu costume
Não vêm declamar os seus discursos, mostrar o seu verbo?

É que os bárbaros hoje vão chegar
E não gostam de arengas, belas frases.

Porque de súbito se instala tal inquietação
Tal comoção (Mas como os rostos ficaram tão graves!)
E de repente se esvaziam as ruas, as praças,
E toda a gente volta a casa pensativa?

Caiu a noite, os bárbaros não vêm.
E chegaram pessoas da fronteira
E disseram que bárbaros não há.

Agora que será de nós sem esses bárbaros?
Essa gente talvez fosse uma solução…

Classificação: 5 (imprescindível)

Opinião pessoal: Kavafis, poeta grego, nasceu em Alexandria em 1863 e aí morreu em 1933.
Foi, como Pessoa, um anónimo funcionário, um hedonista estóico dotado de uma melancolia tão profundamente evidente em quase todos os seus poemas.
Há quem considere Kavafis o maior poeta da primeira metade do século XX, pelo seu classicismo, a manifesta tristeza aristocrática, o uso dos mitos como explicação da vida presente, a falta de figuras de estilo que tornam tão crua e tão real a sua poesia e até a extrema elegância como sugere a emoção erótica em alguns poemas.
Quem nunca tenha lido nenhum dos seus poemas pode surpreender-se com a sua profundidade sentimental e amorosa, interpretando-a como resultado de um intenso sentimento de amizade, de afeição, de Amor para com o ser amado, nunca visível mas sempre presente. Kavafis foi um homossexual assumido e sem complexos. Contudo, nos seus poemas nunca transparece a natureza do ser amado…
Em Kavafis, misturam-se e interpenetram-se as vozes do passado, glorioso ou não, com as do presente, quase sempre fugidio, baço e passageiro.

Escrito por J.

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Leitura 2

Nome do autor: Frederico Lourenço

Título do livro: Odisseia (tradução de Homero)

Data de edição: Maio de 2003

Sinopse: O argumento da Odisseia é centrado em Ulisses e seus companheiros, no seu filho (Telémaco) e na sua mulher (Penélope). Ulisses, rei de Ítaca, é esperado durante anos, a seguir à guerra de Tróia, pela mulher e pelo filho. A bela Penélope, assediada por vários pretendentes, promete-lhes escolher um deles como marido quando acabar de tecer um tapete, que faz durante o dia e desfaz de noite. Telémaco corre diversas aventuras à procura do pai. Ulisses vê o seu regresso a Ítaca dificultado por múltiplos obstáculos: tempestades, magias, sereias, gigantes, etc. Entre os vários perigos por que passam, conta-se a luta com Polifemo, gigante com um só olho na fronte e devorador de homens. Ulisses chega por fim a Ítaca incógnito, mata os pretendentes e, finalmente, é reconhecido pela mulher e pelo filho.

Bem se pode dizer que a Odisseia, juntamente com a Ilíada, também traduzida pelo mesmo autor, constituem as fundações da história política e literária da Europa. Nela se encontram todos os mitos fundadores da nossa identidade, tão bem descritos em imortais poemas do grego Kavafis.

Classificação: 5 (imprescindível)

Opinião pessoal: A tradução da Odisseia, levada a cabo por Frederico Lourenço e publicada em Maio de 2003, é uma extraordinária obra em língua portuguesa.
Mantendo a métrica, o ritmo, o verso do original grego e a excepcional musicalidade que Homero lhe transmitiu, a tradução parece até multiplicar o encantamento desta história, transmitida de geração em geração, desde o século VIII AC.
Nesta tradução, este clássico de sempre, que é uma verdadeira história de aventuras, lê-se de um fôlego.

Escrito por J.

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