Nome do autor: Konstantinos Petrou Kavafis
Título do livro: Poemas (tradução de JM Magalhães e Nikos Pratsinis)
Data de edição: Setembro de 2005 (Relógio d’Água)
Sinopse: No lugar de um resumo, impensável num livro de Poemas, e embora não seja, do meu ponto de vista, dos poemas que mais admiro e cultivo, este é bem demonstrativo de como a voz do passado longínquo pode ser tão actual, em tempos como este de tanta incerteza, angústia e desânimo:
Esperando os bárbaros
Mas que esperamos nós aqui na ágora reunidos?
É que os bárbaros hoje vão chegar!
Mas porque reina no Senado tanta apatia?
Porque deixaram de fazer leis os nossos senadores?
É que os bárbaros hoje vão chegar.
Que leis hão-de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam, que as façam eles.
Mas porque tão cedo se levantou hoje o nosso imperador,
E se sentou na grande porta da cidade à espera,
Oficial, no trono, com a coroa na cabeça?
É que os bárbaros hoje vão chegar.
O nosso imperador espera receber
O chefe. E certamente preparou
Um pergaminho para lhe dar, onde
Inscreveu vários títulos e nomes.
Porque é que os nossos dois bons cônsules e os dois pretores
trouxeram hoje à rua as togas vermelhas bordadas?
E porque passeiam com pulseiras ricas de ametistas,
e porque trazem os anéis de esmeraldas refulgentes,
por que razão empunham hoje bastões preciosos
com tão finos ornamentos de ouro e prata cravejados?
É que os bárbaros hoje vão chegar.
E tais coisas deixam-nos deslumbrados.
Porque é que os grandes oradores como é seu costume
Não vêm declamar os seus discursos, mostrar o seu verbo?
É que os bárbaros hoje vão chegar
E não gostam de arengas, belas frases.
Porque de súbito se instala tal inquietação
Tal comoção (Mas como os rostos ficaram tão graves!)
E de repente se esvaziam as ruas, as praças,
E toda a gente volta a casa pensativa?
Caiu a noite, os bárbaros não vêm.
E chegaram pessoas da fronteira
E disseram que bárbaros não há.
Agora que será de nós sem esses bárbaros?
Essa gente talvez fosse uma solução…
Classificação: 5 (imprescindível)
Opinião pessoal: Kavafis, poeta grego, nasceu em Alexandria em 1863 e aí morreu em 1933.
Foi, como Pessoa, um anónimo funcionário, um hedonista estóico dotado de uma melancolia tão profundamente evidente em quase todos os seus poemas.
Há quem considere Kavafis o maior poeta da primeira metade do século XX, pelo seu classicismo, a manifesta tristeza aristocrática, o uso dos mitos como explicação da vida presente, a falta de figuras de estilo que tornam tão crua e tão real a sua poesia e até a extrema elegância como sugere a emoção erótica em alguns poemas.
Quem nunca tenha lido nenhum dos seus poemas pode surpreender-se com a sua profundidade sentimental e amorosa, interpretando-a como resultado de um intenso sentimento de amizade, de afeição, de Amor para com o ser amado, nunca visível mas sempre presente. Kavafis foi um homossexual assumido e sem complexos. Contudo, nos seus poemas nunca transparece a natureza do ser amado…
Em Kavafis, misturam-se e interpenetram-se as vozes do passado, glorioso ou não, com as do presente, quase sempre fugidio, baço e passageiro.
Escrito por J.