Arquivo para Agosto, 2007

Leitura 11

Nome do autor: Daniel Boorstin

Título do livro: Os Pensadores (Os Criadores, Os Descobridores)

Data de edição: 1993 (Gradiva)

Sinopse: Daniel Joseph Boorstin foi um grande pensador americano, historiador, professor e advogado.

Esta trilogia é uma obra-prima do autor, na qual este aborda a história do grande pensamento mundial.

Em Os Pensadores, Daniel Boorstin descreve, de forma concisa mas muito completa e simples, as grandes doutrinas, ideias e teorias dos grandes pensadores da história da humanidade.

Em Os Criadores, aborda as fundamentais e decisivas criações que nasceram dos espíritos iluminados dos cientistas que estiveram na base do conhecimento universal.

Em Os Descobridores, relata as grandes descobertas da humanidade. Lá aparecem os descobrimentos portugueses, a importância que tiveram, os seus efeitos na evolução da Europa e do mundo.

Classificação: 4 (muito bom)

Opinião pessoal: O que, à primeira vista parece ser uma descomunal e porventura intragável obra, é uma História fundamental do pensamento ocidental, em todas as suas vertentes: científica, filosófica, literária. Todos eles são livros volumosos que se lêem de um fôlego, dada a forma, simultaneamente simples e profunda, como são escritos.

Do mesmo autor existe tradução portuguesa de uma história do povo americano (Os Americanos), que é a mais contundente e provavelmente mais realista descrição da América do Norte. Vindo de quem vem, apenas podemos aceitar como uma visão aproximada da realidade o que o autor diz acerca das qualidades do americano médio, o qual está muito longe da visão estereotipada que a maioria de nós tem dele.

Para os apreciadores de temas históricos, acho que a obra de Daniel Boorstin é fundamental.

Escrito por J.

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Leitura 10

Nome do autor: Zink, R.

Título do livro: Hotel Lusitano

Data de edição: 1987

Sinopse: “Dois americanos vêm a Lisboa, ao engano. Que lhes pode acontecer? Sexo, aventura, morte. Muita acção, sangue q.b., duas lágrimas de mar salgado, três de humor, tudo frito em lume brando, como de costume. Finalmente em livro a historia que inspirou “Um americano em Paris”.

Classificação: 2 (dispensável)

Opinião pessoal: Ainda que me pareça exacerbado classificar este livro como bom, também me parece igualmente ingrato catalogá-lo como tão simplesmente dispensável. De facto, é um livro realmente dispensável, na verdadeira acepção da palavra, mas por outro lado receio que pense assim por ter uma opinião tão negativamente tendenciosa em relação a Rui Zink.

Desta forma, quando vi a sinopse deste livro, ainda que concisa, confesso, esperava mais. Para inspirar um filme das duas uma: ou o livro é mesmo muito bom, ou então é o filme que não vale nada. E assim, julguei, erroneamente, que seria com esta narrativa que o meu juízo a respeito de Zink fosse mudar. Mas, infelizmente, tal não aconteceu. Zink pode, por ventura, ser muito bom cronista e/ou escritor, mas, lá está, a excessiva politiquice com que condimenta o discurso deixam-me num estado de espírito um pouco enojado. E, note-se, não é, directamente, pelo que escreve, mas sim pelo impacto que tem em mim.

No entanto, não posso negar que é um livro com alguma coerência. Breve e bem humorado, Hotel Lusitano peca, pela positiva, pelo excesso de ironia nos diálogos e nas descrições narrativas, pela crítica social, política e geográfica, pela ainda patente crua realidade alfacinha e nacional e por uma certa indiferença cultural que, em boa verdade, ainda hoje a verificamos.

Enfim, se tencionam algum dia comprá-lo, sinto-me tentada a vos fazer reconsiderar. Mas se, algum dia, o encontrarem nas prateleiras de uma biblioteca em que seja possível o requisito, porque não lê-lo? Não é nenhuma obra-prima e ou leitura de referência, mas também não é nada de tão intragável assim.

Escrito por philobiblon

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Leitura 9

Nome do autor: Paul Hoffman

Título do livro: O Homem que só gostava de Números

Data de edição: Março de 2000 (Gradiva)

Sinopse: Paul Erdös foi um matemático húngaro a quem chamaram o Euler contemporâneo. Um dos maiores matemáticos de sempre, foi também um incansável divulgador desta ciência.
Nunca amealhou riqueza, distribuiu sempre os prémios que ganhou, viveu para a ciência e para os outros. Abnegado, gostava de colocar o seu enorme saber e a sua extrema inteligência ao serviço de todos os que o procuravam. Conta-se, por exemplo, que ficou zangado quando soube da demonstração de Andrew Wiles do último teorema de Fermat, que ocupou os matemáticos durante mais de 300 anos, porque ter-se-ia ganho muito tempo se Wiles tivesse querido partilhar os seus estudos com a comunidade de matemáticos de todo o mundo. Paul Erdös era um sábio, por isso era de uma humildade extrema. Nada tinha de seu. Era proverbial a sua imagem, sempre ocupado com os seus próprios pensamentos, permanentemente acompanhado de duas velhas malas de cartão cheias sabe Deus com quê, com as quais percorria o mundo a dar conferências, a “abrir as mentes” de todos os ouvintes.

Ficaram para sempre alguns dos termos que utilizava com frequência:

  • Épilons, eram as crianças que ele adorava;

  • SF, o Supremo Fascista, era o nome que dava a Deus, porque admitia que Ele  sabia todas  as belas demonstrações que a nós nos escapam e que Ele não desvenda porque as pretende guardar só para si;

  • Escravos, eram todos os seres do sexo masculino (Paul nunca se casou…);

  • Boss, eram as mulheres;

  • Pregar, para significar fazer uma palestra;

  • A sua definição de matemático: “Um matemático é uma máquina que transforma café em teoremas”;

  • Finalmente, o epitáfio que escreveu para si mesmo: “Végre nem butulok tovább”, que significa: “Finalmente estou a deixar de ficar estúpido”.

Classificação: 4 (muito bom)

Opinião pessoal: Este livro, que conta um pouco da história deste Homem magnífico e deste matemático insigne, é também uma história resumida das enormes descobertas no campo da ciência matemática.
Nele se contam episódios caricatos da vida de Paul Erdös e de outros matemáticos do seu tempo e seus amigos, mas também as grandes descobertas por ele efectuadas, os seus teoremas, a sua contribuição em vários domínios, nomeadamente, na teoria dos números, na teoria dos grafos, na análise combinatória.

São de enorme importância as suas descobertas e demonstrações no campo dos números primos, a que ele dedicou a vida inteira. Em homenagem a este grande matemático, a comunidade cientìfica inventou o chamado número de Erdös. Trata-se de um número que representa o grau de ligação de cada matemático a Paul, no que respeita à colaboração que tiveram com ele. Assim, os que trabalharam directamente com Erdös têm o número 1; os que trabalharam directamente com estes têm o número 2 e assim sucessivamente.

Muitos dos número 1 são húngaros, como ele. Alguém um dia lhe perguntou porque há tantos insignes matemáticos na Hungria.
- Simples, disse Paul, desde muito novos os estudantes húngaros têm acesso a publicações  de matemática e são permanentemente incentivados nas escolas a lerem-nas, nomeadamente,  a revista Kömal destinada aos jovens…
Simples, direi eu, a forma de ajudar a resolver o gravíssimo problema do ensino da matemática no nosso país…
Este livro é destinado a todos: àqueles que gostam de matemática, porque nele encontram certamente descobertas maravilhosas; e àqueles que pensam que não gostam, apenas porque ainda não “abriram a mente” para a fantástica descoberta da abstracção matemática. 

Escrito por J.

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Leitura 8

Nome do autor: David Mourão-Ferreira

Título do livro: Um Amor Feliz

Data de edição: Novembro de 1986 (Presença)

Sinopse: O Poeta do Amor fala-nos do Amor, em forma de romance. Não será difícil imaginar o conteúdo do livro, se tivermos presente este seu poema:

Paraíso

Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota…
Crepite, em derredor, o mar de Agosto…
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito…

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.

Classificação: 5 (imprescindível)

Opinião pessoal: Um Amor feliz é o primeiro romance de um dos maiores poetas de língua portuguesa e, seguramente, o maior de todos a falar sobre o Amor em todos os seus aspectos. Para além de acerca dele falar, foi, ao que consta, um digno cultor do Amor… Fala, portanto, do que bem conhece… Penso que não é por acaso que o título do livro é este. Porque o Amor é o mais elevado sentimento humano e o que mais influencia e altera o curso normal da nossa vida. Mas também porque, sendo o sentimento que nos causa maior gozo e alegria, nem sempre se pode dizer que nos conduza à Felicidade. Isto é, há amores felizes e há também amores que, em lugar de enorme felicidade, causam tristeza, desencanto e frustração. Como tudo o que acontece nas nossas vidas, nada, nem mesmo o Amor, tem uma só face. Tudo é composto de mudança. Por isso, aquilo que agora nos alegra, entristece-nos daqui a pouco. Somos feitos de mudança e incerteza. O que temos de mais certo é mesmo a mudança, o ajustamento contínuo a circunstâncias sempre diferentes. Ninguém se banha duas vezes na mesma água de um rio… Nem sempre, então, o Amor é bom! Às vezes é mau, entendendo que mau é tudo o que causa sofrimento.

Escrito por J.

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Leitura 7

Nome do autor: Konsalik, H.

Título do livro: A Primavera do Amor

Data de edição: 1979

Sinopse: “As respostas ao seu anúncio vinham comprovar-lhe o mesmo de sempre: o mundo que tinha criado, com aplicação e força de vontade, era perfeito. Apenas não entendeu uma das cartas. Era muito breve, indicava como emissário uma morada de um apartamento em Munique e não vinha acompanhada de qualquer fotografia, mas de uma pequena mosca de asas verdes e brilhantes e um anzol de ferro. Uma mosca para pescadores à linha. «Isto sou eu», explicava o autor da carta. «Se estiver interessada e quiser saber mais coisas, poderemos trocar correspondência.». Era tudo.”

Classificação: 2 (dispensável)

Opinião pessoal: Ainda que a classificação não seja prudentemente favorável, é um livro de boa leitura, ideal para um fim-de-semana na praia, com muito boa disposição. Um livro breve, quase light, que mistura o romantismo difícil e lamechas, entre Kathinka Braun e Ludwig Zipka, com um mundo misterioso e policial. O segredo está constantemente à espreita e há uma ironia disfarçada na voz que o narrador pronuncia.
De um modo extremamente cuidado, expressa um lado calmo e terno da França, o misticismo das pequenas vilas e de monumentos já há muito esquecidos, em particular de um moinho junto a um lago repleto de canaviais.
Não se trata de um clássico nem de um livro inesquecível e preso para sempre na retina e na memória, ainda que este autor seja um conceituado escritor alemão do século XX.

Escrito por philobiblon

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Leitura 6

Nome do autor: José Ferreira Marques

Título do livro: Rua do Arsenal

Data de edição: Fevereiro de 2007 (Palimage)

Sinopse: Duas décadas depois da Segunda Guerra Mundial, enquanto noutros países se davam as transformações que haviam de moldar as sociedades ocidentais do final do século XX, em Portugal, a repressão abatia-se sobre os que ousavam questionar o status quo. Um manto de silêncio ensurdecia o país, posto de quarentena pelo isolamento externo e empobrecido por uma guerra condenada ao fracasso. Com a beleza literária que caracteriza a sua escrita, em Rua do Arsenal, José Ferreira Marques faz-nos reviver um período complexo em que Portugal se equivocou nas encruzilhadas da História. Nas suas páginas revivemos o tempo e reencontramos os lugares e as gentes que então viviam. São pessoas como nós, que vão ao cinema e ao futebol, e respiram o mesmo ar viciado dos transportes públicos. Com elas, partilhamos as preocupações do dia a dia, tomamos café e ganhamos o hábito de olhar à volta antes de falar. Talvez nos revolte o fatalismo que lhes ensombra as vidas, mas, por mais negros que sejam os crepúsculos, é do amor que nascem as alvoradas que mantêm acesa a esperança dos homens. Rua do Arsenal é uma história de amor.

Classificação: 4 (muito bom)

Opinião pessoal: A história de todas as cidades é feita das histórias de todos aqueles que as habitam. Dos seus naturais e de todos os que para elas imigram. Lisboa é uma cidade criada sobretudo por aqueles que a procuram para nela viver. Esta é uma história, aparentemente banal, acerca da vida de algumas pessoas banais que, vindo das profundezas de um país desconhecido, nos ajudam a compreender o que foram esta cidade e este país em recuados tempos, felizmente passados. É uma história de um modo de vida que explica, em boa medida, os tempos que hoje vivemos. No fundo, é uma história de Amor: amor, no sentido estrito da palavra, entre dois seres que se amam; amor também pelo manifesto desprezo da abjecção; amor pelas coisas simples da vida; amor sobretudo pela permanente esperança em dias melhores que acabam sempre por chegar.
Rua do Arsenal é um romance, escrito numa linguagem simples e extremamente cuidada, que termina no momento preciso em que o Futuro começa.

Escrito por J.

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Leitura 5

Nome do autor: Amos Oz

Título do livro: O mesmo Mar

Data de edição: Setembro de 2005 (ASA)

Sinopse: Amos Oz é um dos maiores escritores israelitas vivos. Sendo um dos fundadores do movimento Paz Agora, não deixa de defender tenazmente a pátria única de 5,5 milhões de judeus. Toda a sua obra reflecte a história atribulada da sua terra natal e assenta na análise da natureza humana, nas suas fragilidades e nas suas conquistas.

Classificação: 5 (imprescindível)

Opinião pessoal: Não sei se hei-de dizer deste livro que se trata de um longo poema em prosa, ou se antes o deva classificar como um romance desdobrado em múltiplos poemas. De tal modo o autor discorre e descreve os sentimentos e emoções que perpassam por todos os personagens e lhes atribui uma profundidade tão grande, que por vezes nos parece que nada existe, que tudo não passa de exercício de imaginação.
No entanto, tudo se passa num sociedade enclausurada: pela enorme contradição entre o grau de evolução tecnológica e o fundamentalismo religioso, entre permanente ligação do povo israelita às suas origens “divinas” e o laicismo que cresce na sociedade, entre os anseios de uma juventude que não pode ser vivida em plenitude e os interesses dos grupos que dominam económica e financeiramente o país.
É uma obra onde se não vislumbra nem um ténue vestígio de alegria de viver e que nos deixa no espírito a ideia de que, sobre cada cidadão, existe a ameaça de uma espada sempre pronta a cair-lhes sobre a cabeça.

Escrito por J.

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