Os imprescindíveis:
- Cem anos de solidão
- Os Maias
- O anjo mudo
Os muito bons:
- O livro das ilusões
- Cal
- Kafka à beira-mar
Escrito por philobiblon e Diogo Santos
Os imprescindíveis:
Os muito bons:
Escrito por philobiblon e Diogo Santos
Nome do autor: Martins, V.
Título do livro: Sê feliz e vai à merda
Data de edição: 2002
Sinopse: Será que aos 20 anos “pensamos quando devemos sentir e sentimos quando devemos pensar”? Sê Feliz e Vai à Merda retrata, de uma forma simples e perspicaz, a instabilidade dos sentimentos, emoções e humores tão característica desta fase da vida. Eva, uma jovem jornalista, apaixona- -se por Daniel e vive um amor curto mas de grande intensidade. É através de cartas, dirigidas mas não enviadas a Daniel, que a protagonista exprime o que sente. Para Eva a escrita é uma terapia ou uma técnica para alimentar o passado? Um livro imperdível para todas as adolescentes apaixonadas.
Classificação: 1 (mau)
Opinião pessoal: Sem querer susceptibilizar, considero-o um livro infantil, onde a personagem principal só pode assumir uma de duas formas: ou 1) trata-se de uma adolescente independente, uma vez que é referida a profissão de jornalismo e a existência de casa própria, ou 2) trata-se de uma mulher que vive no mundo púbere, logo, num mundo imaturo, onde as emoções são vividas à flor da pele como felicidade suprema ou desmesurado sofrimento.
Ao nível do conteúdo, descreve a história transversal da humanidade: a menção a relações mal sucedidas, a leve depressão a espreitar a cada momento, o amor versus o ódio, o desespero de amar e a sua incapacidade de estar só. Em suma, é uma narrativa consideravelmente fraca, mas ainda assim louvável para primeiro romance de Vera Martins, na altura com vinte e dois anos, já que a primeira obra muito raramente se revela esplêndida, pela simples razão de se tratar, antes de mais, de um ensaio, de uma tentativa de exploração d@ autor@.
Há, ao longo do livro, uma certa concentração na suspensão histórica, uma aborrecida insistência no sentimentalismo e no saudosismo, sendo que a autora, por fim, como resolução prática do livro, peca por um crescimento prematuro da personagem principal.
Escrito por philobiblon
Nome do autor: Antunes, R.
Título do livro: Onde está o branco em ti?
Data de edição: 2004
Sinopse: “Somos todos iguais. Buscamos as mesmas coisas. É incrível como tantas vezes nos camuflamos debaixo duma capa que não deixa que ninguém nos veja realmente.
Procuramos as estrelas mas não vemos o céu. Queremos conhecer o Universo mas nem nos conhecemos a nós próprios.
Estamos debaixo da terra, num buraco bem fundo e não vemos nada. As coisas não fazem sentido e então tentamos descrever o que nos vai na alma. Mas, apesar disso, não saímos da roda das coisas fúteis em que estamos metidos.
Será assim tão difícil fugir a isto tudo? Encontrar a nossa verdadeira natureza?
A tua alma terá tanta sede dessa água viva que és capaz de deixar tudo para trás e partir em busca dessa fonte da vida eterna?
Onde está o branco em ti?”
Classificação: 2 (dispensável)
Opinião pessoal: Numa perspectiva talvez mais ensaísta, este livro retrata uma geração de sonho que falha nos seus principais propósitos: a ânsia de uma transformação mundial, o intento de uma mudança de mentalidade humana.
O recurso a autores como Nietzsche, Kant, Sócrates e Platão, embora escasso, serve de coloração para as vicissitudes da vida aqui descritas: nesta história verificamos a desolação, a desesperança e o vazio e as implicações de cada um destes aspectos. É um livro que questiona o leitor, essencialmente jovem, talvez devido à empatia sentida pelas próprias personagens, também elas adolescentes.
Não foi um livro que me tenha particularmente interessado. É uma narrativa ligeiramente descontínua e excêntrica, cujo protagonismo é dado a uma única personagem, aparentemente desinteressada de projectos de vida a longo prazo. Peca pelo excessivo idealismo, pelo moralismo, pelo facilitismo e pela ilusão que nos dá de que o mundo é fútil, mas que todos nós temos a capacidade de estarmos além do tangível, se assim o desejarmos. Cria uma falsa esperança de melhoramento, muito embora acredite que possa transformar formas de pensamento humano, principalmente nos mais novos, que são rebeldes, insistentes e criativos.
Como erro fulcral destaco a presença (constante) de erros ortográficos, imperdoáveis na língua portuguesa e inadmissíveis num livro publicado.
Escrito por philobiblon
Nome do autor: García Márquez, G.
Título do livro: Cem anos de solidão
Data de edição: 1997
Sinopse: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.”
Com estas palavras começa Cem anos de solidão, obra-prima da literatura contemporânea, traduzida em todas as línguas do mundo, que consagrou definitivamente Gabriel García Márquez como um dos maiores escritores do nosso tempo.
A fabulosa aventura da família Buendía-Iguarán, com os seus milagres, fantasias, obsessões, tragédias, incestos, adultérios, rebeldias, descobertas e condensações, são a representação, ao mesmo tempo, do mito e da história, da tragédia e do amor do mundo inteiro.
Classificação: 5 (imperdível)
Opinião pessoal: Num estado absoluto de rendição, posso apenas dizer que, muito embora esperasse mais do seu final, é um livro de uma profundidade imensa e de uma qualidade soberba. Como tal, muito ficará por se dizer desta obra.
Uma primeira impressão recai no sentido do inexpressável e do indizível, muito devido à sua carga emocional, ora inebriante ora angustiante. Deste modo, sente-se, alternadamente, momentos de estranheza, de delírio, de exaltação, de explosão, de compaixão, de compreensão, de declínio, de vazio e de aniquilamento. Não é de todo fácil dissolver-me em palavras, mas em suma, é uma obra que disseca a fragilidade humana, num sentido quase imperceptível e existencial.
De forma equitativa, a menção ao simbolismo é outro aspecto a considerar, sendo os mais evidentes os quatro elementos e o sistema de numeração. Dos quatro elementos podem fazer-se conexões meramente indicativas, embora idiossincráticas: da água temos o chuvisco quadriénio e uma posterior e ininterrupta seca; do fogo temos a guerra e o incêndio; do ar temos a elevação de Meme; da terra temos as questões fúnebres e os rituais de Rebecca.
Relativamente ao número sete, podemos enunciar, segundo a tradição cristã, os sete pecados mortais e as sete virtudes, assim como também as sete notas musicais e a semelhança à ondulação marítima. Assim, dos pecados mortais temos: a gula (Aureliano Segundo), a luxúria (Pilar Ternera), a ganância (José Acardio), a preguiça (José Acardio), a vaidade (Fernanda), a inveja (Amaranta) e a ira (coronel Aureliano Buendía). Quanto às virtudes, temos: a castidade (Meme), a generosidade (Rebecca), a temperança (Úrsula), a diligência (Melquíades), a paciência (coronel Gerineldo Márquez), a caridade (Petra Cotes) e a humildade (Santa Sofia de la Piedad). Os sacramentos cristãos também se encontram presentes, mas com uma carga moral em menor extensão.
Verifica-se, assim, no decorrer das gerações e numa mescla de lutas internas e nacionais, de enganos, de cumplicidades, de mentiras, de invejas e de segredos, uma decadência inocultável, como se se tratasse de uma partitura musical em ascensão à procura do negrume e do abismo, em análoga proporção com as notas musicais. É desta forma que o intuito da perfeição, que se manifesta sob um ciclo histérico e irrepetível de sete gerações, sai, assim malogrado.
Uma obra magnânime que não deixa, certamente, ninguém indiferente. Gabriel García Márquez introduz uma lufada de ar fresco na literatura contemporânea ao circundar personagens em torno de representações míticas, de que é exemplo a beleza inalcançável e a inocência última de Meme, a majestosidade de Fernanda e de Pietro Crespi, a alquimia que sempre acompanha Melquíades, as borboletas que escoltam Mauricio Babilónia..
Damo-nos conta, com alguma melancolia, da efemeridade do tempo, das mortes inevitáveis, dos desgostos e dos sofrimentos constantes e do esquecimento cada vez mais visível e cerrado. Talvez por todas estas razões nos sintamos tantas vezes perdidos num lamaçal de solidão.
Nas palavras de Pablo Neruda, “este é o melhor livro escrito em castelhano desde D. Quixote.”
Escrito por philobiblon
Nome do autor: Queiroz, E.
Título do livro: Os Maias
Data de edição: 2003
Sinopse: “A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida (…) pela Casa do Ramalhete, ou (…) o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas (…) tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da senhora D. Maria I (…). O nome de Ramalhete provinha decerto de um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar heráldico do escudo de armas, que nunca chegara a ser colocado, e representando um grande ramo de girassóis atado por uma fita onde se distinguiam letras e números de uma data.”
Classificação: 5 (imprescindível)
Opinião pessoal: Este é um livro muito especial para mim, por várias razões. Especial pela pessoa que me aconselhou a lê-lo, especial pelo tempo que me acompanhou (e que foi mesmo muito tempo) e especial pelo que aprendi com ele. Sendo do meu ponto de vista um livro complexo, não deixa nunca de ser um livro bastante interessante, tanto pelo cariz factual social e político da época, sempre muito bem enquadrada por Eça de Queiroz, como pela história em si.
Esta leitura permitiu-me, através da descrição de Eça, ver como as “tricas”, os tiques e o provincianismo, quase saloio da suposta “alta sociedade” portuguesa, pouco mudaram em duzentos anos, encontrando-se aqui e ali retratos quase perfeitos dos dias de hoje. Só mudaram mesmo o bric-a-brac e as espanholas, que passaram a ter sotaque brasileiro ou ucraniano. As elites intelectuais parecem mais balofas que as dos dias de hoje, talvez por não existir partidos de esquerda, ou melhor, comunistas no parlamento. No entanto, Eça descreve claramente as “trocas e baldrocas” da politiquice caseira em que pouco se debatem os problemas do país, preocupando-se mais com devaneios, vaidades e orgulhos fúteis; enfim, onde muito se fala e pouco de faz. O governo das elites para as elites: também aqui vejo similaridades, pois quando ligo o canal parlamento parece que estou a ver Eça a descrever os deputados que discutem o significado da palavra animal.
É neste emaranhado de gente surge uma das minhas personagens preferidas: João da Ega (será coincidência a semelhança com o próprio Eça de Queiroz?), alguém contra-corrente, diferente, pensante e não alinhado, embora aburguesado como todas as demais personagens. Contudo, a sua irreverência, o seu dom da palavra guia-nos como um foco luz por uma sociedade que, não diria das trevas, mas claramente cinzenta e estática. Não admira que o benjamin Maia se sinta pesado, “velho”, enfadado com aquilo que o rodeia, apenas abanado pela chegada dessa nova mulher misteriosa, bonita e “Chic a valer”.
Desde do início que senti fragilidade na personagem de Carlos da Maia, não tendo que ser um louco apaixonado como João da Ega (pois esse lugar na narrativa já estava ocupado), vejo o jovem Maia como alguém muito igual aos demais, apenas iluminado pela paixão e pela beleza de uma mulher. Revejo-o como uma personagem sem a força do seu avô, fraco e sem muito conteúdo e que em muito pouco tempo (ou neste caso linhas ou capítulos) renega brutalmente quem ama, sentindo-se, segundo as suas palavras, enojado. Como se poderá sentir nojo de quem se ama mesmo sendo sua irmã? Esta é a minha opinião, tenham a vossa. Recordo-me que perto do fim da narrativa, Ega reconforta o seu amigo Maia dizendo que a vida só é vivida na sua plenitude e intensamente quando ligada à paixão e ao amor.
Apesar de gostar do livro sou incapaz de não ligá-lo, devido ao seu final trágico, a uma certa melancolia e negrume, onde três vidas, três jovens ficam muito aquém de um radioso e proeminente futuro. Como diz Ega: três vidas interrompidas. Eu sinto que Eça neste livro escreve o que Amália canta: “tudo isto é triste, tudo isto é Fado.”
Escrito por Diogo Santos
Nome do autor: Cabral, J.
Título do livro: Nómada
Data de edição: 2004
Sinopse: Uma sequência de acontecimentos – confusão à porta de uma discoteca, uma boleia de um estranho, o roubo de um automóvel – conduz uma jovem a uma viagem sem rumo.
Mais do que um retrato do Portugal dos nossos dias, esta obra revela, na acidez da narrativa, a desilusão e o desencanto de uma juventude que procura na evasão uma forma de suportar a realidade.
Nómada é o relato cru dessa fuga ao quotidiano, onde personagens e situações inesperadas se cruzam a um ritmo vertiginoso, não deixando espaço para o leitor respirar.
Classificação: 2 (dispensável)
Opinião pessoal: Não é de todo uma obra original: à semelhança do livro Ricos, Bonitos e Loucos de Manuel Arouca, escrito em 1989, Nómada versa sobre uma geração absolutamente frívola e desconjuntada.
Numa escrita pouco convencional, predominam como grandes temas a criminalidade, a toxicomania e o sexo, numa patente crítica social, roçando a presunção, a histeria e o preconceito.
O retrato que Joana Cabral pretende elaborar está muito longe da realidade portuguesa, porque aquilo que acontece no mundo lisboeta não deve, de forma alguma, ser generalizado a um plano nacional. Joana Cabral cai, assim, na esparrela de, ao querer inovar, cair no mais ridículo engano.
Escrito por philobiblon
Nome do autor: Böll, H.
Título do livro: O Anjo Mudo
Data de edição: 2003
Sinopse: “Pisou cacos de vidro e assustou-se: o seu coração disparou e sentiu-se tremer: à direita do nicho escuro havia alguém, alguém que não se movia; tentou dizer algo que soou como um “olá”, mas a voz estava fraca de medo e o bater frenético do coração atrapalhava-o. A criatura no escuro não se moveu: tinha nas mãos uma coisa que parecia uma bengala – ele aproximou-se vacilante e mesmo depois de ter percebido que era uma estátua o coração não se acalmou.”
Classificação: 5 (imperdível)
Opinião pessoal: É difícil falar de um livro tão delicado como este, onde o Amor nasce de uma solidão imensa, de uma tristeza infindável, de uma pobreza quase atroz e de um vazio tão existencial, tão puro, tão magnânimo.
A narrativa inicia-se num trilho medonho de descontinuidade, de aniquilamento, de pobreza e de desconcerto, enquanto vamos, página a página e com a mesma lentidão com que tragamos a angústia inaugural, descortinando o resplandecer de uma esperança, para imaginarmos outra e outra até ao infinito. Descreve, em suma, amores e dores de várias taxionomias, num círculo quase vicioso de incertezas.
Um livro fabuloso que nos ensina a lição mais primitiva, e como tal a mais negligenciada, do ser humano: podemos perder tudo quanto temos, mas jamais estaremos sós enquanto o Amor, seja ele de que espécie for, viver dentro de nós.
Opinião de Werner Bellman: O novo romance começa no dia do armistício. O que então se passa não são atitudes grandiosas, nenhuma “ascensão”, mas sim o verdadeiro destino humano: o perigo constante! Da guerra não se conta nada, são pouquíssimas as alusões ao decurso externo do pós-guerra. Heinrich Böll descreve unicamente os seres humanos daquela época. Através dessas pessoas aprendemos que já é muito quando conseguimos, ao menos, sentir o sopro da alma, quando nos atinge um único raio de amor, quando conseguimos salvar, do vale soterrado da fé, a Luz Eterna. É uma história de amor, clara e seca, contada com a austeridade da geração dos “retornados”, que sabe que não existe pátria neste mundo. A narração parece, inicialmente, brutal e realista, mas não é o realismo “gritante”. Com mão delicada, com mão quase perversamente delicada, Böll guia-nos através do abandono definitivo de homens aos quais resta tão-somente a vida. Deste livro pode mais uma vez dizer-se o que já foi dito de outras publicações suas anteriores.
Escrito por philobiblon